“Elsa foi fazer companhia para mim. Cheguei no hospital e logo fui para a sala de parto. Quando a Rosely nasceu, o dr. Barbosa disse brincando: eu quero esta menina para mim. É a coisa mais linda deste mundo! E ela era igual à figura da menina daquela caixa de bombons americanos!
Olhos azuis e cachos tão crespinhos que era preciso usar pentes bem grossos para puxar e pentear. E, como toda criança, não deixava porque doía muito. Quando muito pequena, Odette precisava colar as fitas com cola no cabelo. Por onde passava, chamava a atenção. Certo dia, Rosely vestia um vestido de cambraia de linho azul e as duas estavam na rua Barão de Itapetininga, quando algumas pessoas pararam e pediram licença para colocar a mão no cabelo da menina para ver se era mesmo de verdade! Para sua mãe, aquela menina clarinha, com os grandes olhos azuis e cabelo vermelho cacheado foi muito vaidosa, desde pequenininha, mas também recorda que “tinha um gênio terrível. Quando ela não gostava da pessoa, não olhava. Eu tive uma empregada que ela não gostava e então, não olhava para ela. E a empregada ria do jeito da menina”.
Mas, com três meninas (Rosely com meses e as meninas com cinco e seis anos), ficou difícil continuar morando no apartamento do Largo do Arouche, ainda que tivessem pertinho tudo o que precisavam. As meninas brincavam na escolinha da Praça da República, o atendimento médico gratuito era feito no Caetano de Campos, com acompanhamento quinzenal. Eles podiam ir ao cinema e deixar as meninas com um dos irmãos que moravam perto e visitavam quase diariamente as sobrinhas: “O Joãozinho ficava com as crianças. Se eu comentasse que ia sair, o Zuza e a Elsa iam para lá. Todos tinham paixão pelas meninas”.
Ignacio tentou primeiro um
apartamento maior no mesmo bairro. Naquela época, ele trabalhava na Casa dos Elásticos,
na rua Líbero Badaró e fazia contabilidade da fazenda dos Barros, que moravam
em Garça. E começou a perguntar aos amigos e ver os anúncios. Uma noite, voltou
do trabalho e comentou ter achado uma casa na avenida Santo Amaro, número 342, que chamava a atenção pelo tamanho
e se destacava naquela avenida com enormes árvores de flores roxas que durante a primavera, transformava as duas pistas em tapetes roxos. Tinha um pequeno
comércio perto, ainda que fosse longe do centro. Depois de visitada pelos dois,
Ignacio foi tratar do aluguel com o proprietário na rua Boa Vista. Conversando,
comentou que a família da mulher, Aguirre, era de Garça. Então, o proprietário
enfaticamente respondeu que não só conhecia como era parente distante dos
Aguirre e imediatamente fechou o negócio, reduzindo o preço do aluguel: “Ignacio,
a casa é sua!”. O fiador, Mariano de Carvalho Barros, comentou com o amigo
Ignácio – “mas você nasceu virado para a Lua, esta casa é muito boa!”
A casa era enorme, isolada de
todos os lados. Branca, de tijolo à vista, tinha na entrada uma varanda onde as
crianças patinavam quando ela era encerada (uma das brincadeiras da época). Na
frente, um jardim com roseiras e árvores. Nos fundos, um grande quintal com parreira
de uva e até um galinheiro – fechado quando proibiram que as pessoas em São Paulo
tivessem criações. Tinha ainda garagem, local preferido das meninas para brincar
de casinha ou lojinha e que ficava ao lado do escritório de Ignacio, lugar
considerado mágico para as meninas, com um canto embaixo das prateleiras com
livros que nas brincadeiras se tornava esconderijo. Na mesa de trabalho, um
abajur já com uma lâmpada fluorescente, e na gaveta, o fumo de corda e a
tesoura grande para ele fazer seus cigarros de palha. Na parte de cima da casa,
três quartos e uma sacada onde Rosely brincava na rede ou de escrever longas histórias
em livros velhos de contabilidade. Depois, a varanda foi fechada com vidros.
Os primeiros vizinhos eram alemães
e logo a falante Verinha fez amizade com eles, visitando-os sempre para tomar
chá. Então, a casa ao lado ficou vaga e Helena e Francisco Mattos se mudaram
para lá. Helena era sobrinha da cunhada de Odette e eles já se conheciam, se
tornando amigos e compadres anos depois. Naquela casa da gostosa avenida Santo
Amaro, onde moravam três belas meninas, começavam amizades que iriam durar para o resto de suas vidas. E estas amizades geraram histórias novas que logo, logo, serão contadas!