sexta-feira, 22 de junho de 2012

No interior de São Paulo...
João de Aguirre Camargo sabia como tirar da terra o melhor café e como administrar fazendas. Afinal, tinha nascido e crescido em uma bela fazenda de café em Rio Claro, interior de São Paulo, onde seu pai perdeu muitos bens com a abolição da escravidão. Afinal, os novos tempos daquele Brasil exigiam outras atitudes dos que ocupavam a elite – nas cidades e no interior. Seus irmãos conseguiram estudar, mas em sua vez, a família conheceu outra realidade. O que valia mesmo era o conhecimento e isto ele tinha de sobra – sabia quando a florada iria dar uma boa safra, sofria quando a geada queimava o que poderia virar dinheiro. Não era muito alto, mas era garboso e seus olhos azuis chamavam a atenção das moças nos bailes que frequentava quando ia a Ribeirão Preto. Certa noite, viu uma moça diferente entrar no salão – com seus olhos verdes e uma postura altiva, elegante com seu chapéu e luvas e que não olhava diretamente ninguém. Estava acompanhada de outras moças, e – pelo que logo procurou investigar com os amigos ­– Sebastiana Borges era seu nome e vinha com os Cunha Bueno. Vencendo a sua timidez, foi até ela e pediu uma dança. Com um sorriso e balançar de cabeça, concordou com o pedido. Rodaram pelo salão, mas João não teve chance de falar nada. Como não era pessoa de desistir, assim que a dança terminou, solicitou outra. E ela, que mal havia chegado ao baile, concordou novamente com um sorriso. Sem perder tempo, João tratou de saber mais sobre aquela moça tão alinhada e com ares de pessoa decidida. Tinha sido criada pelos avós João e Luiza, pois sua mãe faleceu quando ela nasceu. Chamava-os de pais e deles recebeu educação com uma visão europeia, especialmente de seu avô alemão. Gostava mais da cidade que de fazenda, e sabia fazer de tudo um pouco – e bem feito. Quando podia, aproveitava para ler e aprender novas receitas de doces e bolos.
Da dança daquela noite, ele passou a frequentar a casa de Sebastiana, em visitas regulares e pediu a sua mão em casamento. Cerimônia simples, em Ribeirão Preto, logo mudaram-se para uma fazenda em Cravinhos, morando em uma bela casa, com pomar e varandas. Ali, eles tinham criados e João seguia como administrador da fazenda de café. Antes do primeiro ano de casamento, nascia Francisco, o primeiro de seus 11 filhos e muitas histórias surgiriam naquela família.

E breve....No sul, a chegada em novas terras

quarta-feira, 6 de junho de 2012


Em busca do amor conta a história de várias histórias de minha família. Há muito tempo que eu ensaio escrever um livro inspirado na vida de meus avós e pais, como legado para meus sobrinhos e sobrinhas-netas que não puderam conhecê-los. Claro que a visão é minha, que não convivi com os avós, convivi com meu pai por 18 anos e tive o privilégio de conviver com minha mãe até os seus quase 92 anos, quando ela faleceu.
Tudo começou em 2001 quando resolvi fazer algumas entrevistas com minha mãe para saber sobre sua vida, com alegrias e dores. Com este material e um texto que meu pai escreveu para ela e suas quatro filhas, entregue em 1967, quando completaram bodas de prata -  25 anos de casamento. Então, aqui serão contadas pequenas histórias, colocadas algumas fotos e acredito que também servirá para que primos, primas, amigos, possam contribuir. Enfim, será uma obra escrita por muitos, como é a vida nossa de cada dia. 
Então, era uma vez...
Outubro de 2007. Eu aguardava ansiosa uma ligação de Paola, minha bela sobrinha. Uma mulher de 34 anos, ruiva de olhos azuis. Annamaria, sua irmã, deveria ter a segunda filha a qualquer momento e eu iria também para a maternidade. Anna, Lauro – marido de Anna – e Luisa, minha sobrinha-neta de sete anos, moram perto da maternidade. A qualquer momento, Catarina poderia nascer.
Vera, minha irmã, e seu marido, Enrico, estavam na Itália, em viagem de férias.
Ao ouvir a voz da Paola, tive um misto de alegria e aflição – nascimento para mulheres em nossa família é sempre um pouco complicado – e avisei Antonio, meu marido na época. Fui para a maternidade, pensando em como o tempo voa em nossas vidas. Anna, minha afilhada, seria mãe pela segunda vez.
À noite, chega Catarina, pequena e bela. Mais uma mulher para a minha história familiar. Uma história que percorre tantas histórias de casais e em especial de um  – Ignácio e Odete – meus pais. Antes deles, a história de meus avós, que começou há muito tempo. E como toda história que se preza....

Era uma vez... na Polonia no inicio dos anos 1900

José já havia embrulhado tudo o que iria levar e não era muito. A bíblia, a última edição do semanário de Ponz – cidade próximo de onde moravam, o terço de sua mãe. Pronto. Agora era buscar Catarina, sua mulher há poucas horas e que se despedia dos pais Pedro e Catarina Pajeiak. Seus olhos azuis percorreram mais uma vez o quarto onde viveu a juventude ao lado do irmão que já havia partido no mês anterior. A cama de ferro arrumada com o cobertor dobrado – costume aprendido ainda menino com seus pais Casemiro e Anna Mierzwa – a lamparina apagada ao lado da cama. Fechou a porta, virou a chave e com passos decididos foi até a casa maior de madeira ao lado. Subiu as escadas, entrou no alpendre. De dentro, vinha o aroma das batatas cozidas. De pé, sua velha tia chorava sem parar, com o lenço negro na cabeça, avental amarrado na cintura. José abraçou-a mais uma vez, sabendo que seria a última, entregou a chave e agradeceu, secando as lágrimas com o lenço branco que sempre trazia no bolso. Encostado em um dos pilares de madeira trabalhada, estava seu tio, com o rosto sério. Então, em um gesto carinhoso e ao mesmo tempo decidido, afastou com cuidado a mulher do sobrinho, e deu um forte abraço:
-          Vai, José. Esta é a melhor decisão que você e Francisco tomaram. Nossa Polônia não tem nada a oferecer para vocês agora. Comece uma vida nova, uma família e mande notícias, se puder. Não nos esqueça, filho. Não esqueça nunca desta terra que sempre será sua mesmo sem ser reconhecida como Pátria. Que Deus os acompanhe!
Ele olhou demoradamente para os tios e a casa que lhe abrigou. Queria guardar cada detalhe daquela cena, os rostos de sua família na memória. Deixar seu país era mais que deixar aquela casa onde morou depois que seus pais morreram. Primeiro o pai, depois a mãe. Foi ali onde viveu seus melhores momentos com seu irmão, que, sabia, nunca mais iria encontrar, pois Francisco tinha tomado o rumo dos Estados Unidos, país estranho, mas com portas abertas aos imigrantes. Naquele lugar, ele falava sua língua. Mas tinha que seguir em frente e não estava mais só.
Fechou o portão de madeira e foi caminhando com sua pequena mala para a casa dos Pajeiak, também nos arredores de Ponz. Lembrava do dia que viu Catarina pela primeira vez, quando retornava do trabalho no campo. Seus belos olhos azuis cruzaram com os dela. Então, onde pudesse encontrar aquela menina, lá estava José, nas festas da igreja, nas ruas da cidade. Dos olhares, passaram às conversas, sempre acompanhadas pela mãe de Catarina, que observava atenta, como era costume. Em uma noite, José vestiu sua melhor roupa. Foi à casa dos Pajeiak e pediu Catarina em casamento. O casamento foi simples, ela com seus 16 e ele com 26 anos, na igreja da cidade pouco antes da viagem de trem ao porto para o navio que os levaria para tão longe.
Tão pouco tinha ele a oferecer, mas tanto amor para dar para aquela mulher decidida a enfrentar o futuro ao seu lado. Desde que a conheceu, ficou impressionado com a sua forma de pensar. José sempre acreditou que o amor à Pátria deveria vir em primeiro lugar. Catarina era uma mulher prática que acreditava mais na capacidade das pessoas comuns do que na dos que governavam o país – que naquela época tinha perdido sua condição de Estado.
Antes de saírem, Pedro Pajeiak chama José e lhe entrega um pacote:
-          José, você é o homem que Catarina escolheu para ser pai de meus netos. Não quero que nada falte a eles nem a ela, neste novo mundo que vão enfrentar. Não sabemos como será nosso futuro, mas tenho estas poucas economias. Aceite para seu início de vida, pelo menos com menos dificuldades.
-          Obrigado, senhor Pajeiak. Nunca faltará nada a Catarina nem aos meus filhos. Sou trabalhador e isto o senhor pode ter certeza. Saio de meu País para que minha família tenha um nome a honrar e uma terra para plantar e que possa ter orgulho de ser polonesa e não ter que esconder sua origem.
E assim José e Catarina Mierzwa iniciaram sua longa viagem ao Brasil.

Enquanto isto, no Brasil, muitos anos antes...