Em busca do amor conta a história de várias histórias de minha família.
Há muito tempo que eu ensaio escrever um livro inspirado na vida de meus avós e
pais, como legado para meus sobrinhos e sobrinhas-netas que não puderam
conhecê-los. Claro que a visão é minha, que não convivi com os avós, convivi
com meu pai por 18 anos e tive o privilégio de conviver com minha mãe até os
seus quase 92 anos, quando ela faleceu.
Tudo começou em 2001 quando resolvi fazer algumas entrevistas com minha
mãe para saber sobre sua vida, com alegrias e dores. Com este material e um
texto que meu pai escreveu para ela e suas quatro filhas, entregue em 1967,
quando completaram bodas de prata - 25 anos de casamento. Então, aqui
serão contadas pequenas histórias, colocadas algumas fotos e acredito que
também servirá para que primos, primas, amigos, possam contribuir. Enfim, será
uma obra escrita por muitos, como é a vida nossa de cada dia.
Então, era uma vez...
Outubro
de 2007. Eu aguardava ansiosa uma ligação de Paola, minha bela sobrinha. Uma
mulher de 34 anos, ruiva de olhos azuis. Annamaria, sua irmã, deveria ter a
segunda filha a qualquer momento e eu iria também para a maternidade. Anna,
Lauro – marido de Anna – e Luisa, minha sobrinha-neta de sete anos, moram perto
da maternidade. A qualquer momento, Catarina poderia nascer.
Vera,
minha irmã, e seu marido, Enrico, estavam na Itália, em viagem de férias.
Ao ouvir a voz da Paola, tive um
misto de alegria e aflição – nascimento para mulheres em nossa família é sempre
um pouco complicado – e avisei Antonio, meu marido na época. Fui para a
maternidade, pensando em como o tempo voa em nossas vidas. Anna, minha
afilhada, seria mãe pela segunda vez.
À noite,
chega Catarina, pequena e bela. Mais uma mulher para a minha história familiar.
Uma história que percorre tantas histórias de casais e em especial de um –
Ignácio e Odete – meus pais. Antes deles, a história de meus avós, que começou
há muito tempo. E como toda história que se preza....
Era uma vez... na Polonia no
inicio dos anos 1900
José já havia embrulhado tudo o
que iria levar e não era muito. A bíblia, a última edição do semanário de Ponz
– cidade próximo de onde moravam, o terço de sua mãe. Pronto. Agora era buscar
Catarina, sua mulher há poucas horas e que se despedia dos pais Pedro e
Catarina Pajeiak. Seus olhos azuis percorreram mais uma vez o quarto onde viveu
a juventude ao lado do irmão que já havia partido no mês anterior. A cama de
ferro arrumada com o cobertor dobrado – costume aprendido ainda menino com seus
pais Casemiro e Anna Mierzwa – a lamparina apagada ao lado da cama. Fechou a
porta, virou a chave e com passos decididos foi até a casa maior de madeira ao
lado. Subiu as escadas, entrou no alpendre. De dentro, vinha o aroma das
batatas cozidas. De pé, sua velha tia chorava sem parar, com o lenço negro na
cabeça, avental amarrado na cintura. José abraçou-a mais uma vez, sabendo que
seria a última, entregou a chave e agradeceu, secando as lágrimas com o lenço
branco que sempre trazia no bolso. Encostado em um dos pilares de madeira
trabalhada, estava seu tio, com o rosto sério. Então, em um gesto carinhoso e
ao mesmo tempo decidido, afastou com cuidado a mulher do sobrinho, e deu um
forte abraço:
- Vai, José. Esta é a melhor decisão que você e
Francisco tomaram. Nossa Polônia não tem nada a oferecer para vocês agora.
Comece uma vida nova, uma família e mande notícias, se puder. Não nos esqueça,
filho. Não esqueça nunca desta terra que sempre será sua mesmo sem ser
reconhecida como Pátria. Que Deus os acompanhe!
Ele olhou
demoradamente para os tios e a casa que lhe abrigou. Queria guardar cada
detalhe daquela cena, os rostos de sua família na memória. Deixar seu país era
mais que deixar aquela casa onde morou depois que seus pais morreram. Primeiro
o pai, depois a mãe. Foi ali onde viveu seus melhores momentos com seu irmão,
que, sabia, nunca mais iria encontrar, pois Francisco tinha tomado o rumo dos
Estados Unidos, país estranho, mas com portas abertas aos imigrantes. Naquele
lugar, ele falava sua língua. Mas tinha que seguir em frente e não estava mais
só.
Fechou o
portão de madeira e foi caminhando com sua pequena mala para a casa dos
Pajeiak, também nos arredores de Ponz. Lembrava do dia que viu Catarina pela
primeira vez, quando retornava do trabalho no campo. Seus belos olhos azuis
cruzaram com os dela. Então, onde pudesse encontrar aquela menina, lá estava
José, nas festas da igreja, nas ruas da cidade. Dos olhares, passaram às conversas,
sempre acompanhadas pela mãe de Catarina, que observava atenta, como era
costume. Em uma noite, José vestiu sua melhor roupa. Foi à casa dos Pajeiak e
pediu Catarina em casamento. O casamento foi simples, ela com seus 16 e ele com
26 anos, na igreja da cidade pouco antes da viagem de trem ao porto para o
navio que os levaria para tão longe.
Tão pouco
tinha ele a oferecer, mas tanto amor para dar para aquela mulher decidida a
enfrentar o futuro ao seu lado. Desde que a conheceu, ficou impressionado com a
sua forma de pensar. José sempre acreditou que o amor à Pátria deveria vir em
primeiro lugar. Catarina era uma mulher prática que acreditava mais na
capacidade das pessoas comuns do que na dos que governavam o país – que naquela
época tinha perdido sua condição de Estado.
Antes de
saírem, Pedro Pajeiak chama José e lhe entrega um pacote:
- José, você é o homem que Catarina escolheu para ser
pai de meus netos. Não quero que nada falte a eles nem a ela, neste novo mundo
que vão enfrentar. Não sabemos como será nosso futuro, mas tenho estas poucas
economias. Aceite para seu início de vida, pelo menos com menos dificuldades.
- Obrigado, senhor Pajeiak. Nunca faltará nada a
Catarina nem aos meus filhos. Sou trabalhador e isto o senhor pode ter certeza.
Saio de meu País para que minha família tenha um nome a honrar e uma terra para
plantar e que possa ter orgulho de ser polonesa e não ter que esconder sua
origem.
E assim José e Catarina Mierzwa
iniciaram sua longa viagem ao Brasil.
Enquanto isto, no Brasil, muitos
anos antes...