terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas, ou vice-versa

Voltando um pouco no tempo... A virada do ano 1999 para 2000 marcou a reunião das famílias Rastelli e Miessva. Todos na praia de Itamambuca, na então casa nova da Vera e Enrico, na rua 13, onde ficaram alguns e outros hospedados na casa que tinham construído antes, a da casa da rua 9. Três irmãos e três irmãs, maridos, esposas, filhos e filhas, sobrinhos e muito movimento. Todos vestidos com camisetas brancas com o ano 2000 em dourado, dadaa pelo casal Enrico e Vera. Por volta de dez horas, com um acidente em um transformador na rua, acaba a luz! Improvisação para organizar a ceia na sacada da frente, brincadeiras do Gianpaolo e do Enrico, muita confusão e alegria. Ainda não tínhamos crianças na família e Odette recuperava-se do tumor retirado anos antes, que limitou gradativamente sua mobilidade. Luisa chegaria já no novo milênio, em 7 de fevereiro de 2001.
O ano 2000 trouxe a perda do Peter, de forma precoce, aos 58 anos, deixando Muqui e os filhos Chris, Betina, André e Júlia. Não ouviríamos mais suas risadas nem teríamos suas brincadeiras – às vezes um pouco impertinentes, é verdade. Minha preocupação era que ele tivesse partilhado com o filho Christian a história vivida com a Toy. Ao longo de sua vida, falar dela era muito difícil, senão impossível. Ao chegar no velório, Chris me contou que semanas antes haviam tido uma conversa e Peter contou a história de amor, dor e de realização – afinal, estava ali a concretização daquela união - um homem que também seria pai e descobriria que o ato de amar um filho é interminável.
Entre meados dos anos 1990 e primeira década dos anos 2000, também tivemos a perda de muitos tios, com momentos de compartilhamento de lembranças, risos e choros entre sobrinhos e primos no cemitério do Araçá.  
Enquanto os mais velhos partiam, chegava a quarta geração, primeiro com Luisa, que nasceu na mesma maternidade onde o ‘tio’ Christian tinha nascido décadas antes. No bairro da Vila Nova Conceição, berço do crescimento das gerações Miessva, ela foi saudada pelas mulheres da família – Odette, Vera e a mãe Anna.
Em setembro de 2001, no dia 14 – entre o dia de nascimento de sua avó Toy (dia 13) e sua tia Julia (dia 15), nascia João Pedro, com cachinhos escuros herdados da mãe, mas que lembravam a avó Toy. Escolhida pelos pais Christian e Fabiana como sua madrinha, eu corri para chegar à maternidade que ficava no Morumbi, mesmo bairro que eu e mamãe morávamos próximas. Como criança não espera para nascer, quando cheguei ao andar da maternidade, Chris já estava com ele e me mostrou pelo vidro aquele pinguinho de gente, em meio às nossas lágrimas. Mais tarde, no mesmo dia, foi a vez da bisavó Odette conhecê-lo. Escrevemos algumas palavras em um livro, montado pela Fabiana, para saudar seu nascimento.
O ano de 2002 marcou a entrada de Olívia e de Beatriz na vida universitária e saída da casa dos pais. Olívia foi morar alguns meses com a avó Odette – que já não estava bem de saúde e tinha rompantes nervosos – e em um destes, ela teve que sair da casa da avó e ir morar com outras meninas. Se por um lado, foi triste vê-la sair de um abrigo familiar, por outro permitiu que  amadurecesse e pudesse construir sua vida em São Paulo, trabalhando e estudando Relações Públicas na USP. Bia foi morar na Praia Grande e estudar biologia marinha na Unesp, onde conheceu Mateus, seu futuro companheiro.
O dia 26 de abril de 2004 marcou a chegada de mais um filho do Chris e Fabiana – Luiz Felipe, recebido com carinho por todos nós. João Pedro estava ansioso pela chegada do irmão, com quem imaginava partilhar logo brincadeiras e risadas. Mas constatou rápido a realidade do início da vida quando, meses depois, certo dia, olhou firme para o irmão e disse enfaticamente para o pai:
- “Mas ele só dorme!”
No início de 2007, Luisa passou a ter a mesma expectativa, com a futura chegada da irmã. E, em 15 de outubro de 2007 nasceu Catarina Rastelli Lapa. Naquela noite, enquanto Luisa e eu ficávamos no quarto na maternidade, Paola levou uma roupinha, pedida pelo Lauro, que estava no centro cirúrgico com Anna. E nada de voltar. Eu e Luisa já tínhamos esgotado nosso repertório de músicas e brincadeiras. De repente, Paola entrou chorando. No primeiro momento fiquei assustada, mas logo relaxei quando ela disse que tinha visto o nascimento da sobrinha e que era linda e que tinha sido maravilhoso. Então, depois de mais de um século, uma nova Catarina estava na família. Uma menina doce e carinhosa e muito emotiva, com lágrimas que surgem facilmente em seus olhos, sempre profundos.
Enquanto os pequenos cresceram e movimentaram as nossas vidas, Odette viveu seus últimos dois anos morando na casa da filha Rosely, em São Carlos. A decisão de ela morar com Rose foi tomada depois de um incêndio no apartamento dela e logo após eu ter tido um sério problema de saúde – estresse agudo que culminou com internação com alta pressão no hospital e tratamento por vários anos. Nestes dois anos, a visitei várias vezes na casa da Rose em São Carlos, onde ela pode curtir os netos que sempre moravam distantes. As vezes ia com Christian e seus filhos, às vezes com Vera ou sozinha. Catarina ainda conheceu a bisavó, em uma viagem com a nonna Vera, tia Lena e a mãe Anna.
Neste período, meu casamento já estava dando sinais de falecimento e, em 2008 só faltavam detalhes financeiros que seriam resolvidos para eu iniciar uma nova etapa.
No início de julho de 2008, em uma curta semana de férias que tirei para ficar com Vera na praia, recebemos o telefonema de Rosely. Fui com Christian para São Carlos. Ali, na nova enfermaria do hospital municipal de São Carlos, os netos que conviveram com ela aqueles dois últimos anos puderam se despedir e o neto mais velho pode abraçá-la mais uma vez. De forma impressionante, mas não surpreendente, ela se manteve lúcida quase até o final de sua vida. E na noite de 6 para 7 de julho de 2008, passou suas últimas horas ouvindo eu contar várias histórias de sua vida. Tirou um pequeno anel de seu dedo direito e me deu. Naquele momento, ao fitar aqueles olhos que sempre foram tão vivos e me orientaram tantas vezes, procurei reter todo o amor que recebi ao longo de sua vida. Na manhã do dia 7 de julho, quando eu já estava na casa da Rose, ela nos deixou, amparada pela cuidadora e enfermeiras do hospital. Rosely chegou em casa e nos abraçamos, chorando. Horas depois, Vera chegou de São Paulo e ali choramos não só a partida da mãe, mas a falta que suas risadas e seu carinho fariam em nossas vidas.
Há muitos anos, escrevi um texto lido em uma celebração de aniversário de mamãe, a Odette. Encerro este capítulo de chegadas e partidas com ele:

Falar da Odete é falar de boas risadas, de brincadeiras de roda e de músicas infantis ensinadas para as gerações que gerou.
Mulher forte, que tantas vezes engoliu seu choro para não deixar tristes filhas, netos e genros.
Nascida no meio do campo, criou histórias com suas lembranças da fazenda, do cafezal em flor e das noites de luar. Dos patinhos no meio da chuva, do leite quente colhido e tomado pela manhã, ainda na cama. Do pai sempre gentil e atencioso, da mãe, severa e bela.
Com os irmãos, aprendia futebol. Pelos irmãos, preparava os mais gostosos quitutes, saboreados pelas mais de 12 pessoas reunidas na grande mesa da casa. Pelas irmãs, costurava um vestido aqui, ajeitava um penteado ali. Tudo para fazer os outros felizes. Na juventude, descobria a alegria dos bailes, dos flertes, dos namorados. E lá estava presente a sua risada alegre sempre contagiando o ambiente.
Amizades cultivadas ao longo da vida. Com frequência, usam o telefone para manter os laços vivos. Lembram histórias de ontem e riem das dificuldades de hoje.
Com Ignácio, seu companheiro de vida, construiu uma família, feita de mulheres alegres e fortes. Criadas à sua semelhança, aprenderam a não desistir jamais diante dos problemas. Sempre há uma solução. É só rezar, pedir ajuda a Deus e jamais perder a fé a confiança em si.
Sua casa sempre esteve aberta. Por ela passaram sobrinhos, amigas, filhas em momentos difíceis, netos e netas. Não importava onde estava morando. A porta se abria, o cheiro da comida no forno surgia. Roupa limpa de cama e de banho estava logo ali, pronta. E, depois, sempre tinham as conversas até altas horas da noite. Afinal, ela nunca foi de acordar cedo, mesmo!
Sua mão de fada-madrinha sempre aparecia para dar um toque especial. Foi assim com os vestidos de Vera, Rosely e Lena para o casamento de sua filha mais velha, a Toy. 
E também foi assim com as toucas e roupas de bebê feitas com carinho para os seus primeiros netos Christian, Anna e Paola. Com estes seus três pequenos companheiros, viveu muitas histórias, criou brincadeiras. Sempre em meio do preparo das balas de café, das receitas de brigadeiro, e da paçoca feita para comemorar as festas juninas.
Eles cresceram com ela ao seu lado. Dirigindo o carro, preparando festas, fazendo bolos criados com carinho e criatividade. Uma pequena boneca logo se tornava uma princesa, com vestido decorado com flores de glacê...
Depois chegaram os gêmeos Beatriz e Octavio. E lá estava ela de novo, firme e forte. Ao lado da filha Rosely, do genro Luiz Carlos e da nova família que nascia em São Carlos, transmitindo energia, brincando com o genro, trocando os netos, e – mais uma vez - ensinando jovens a lidar com crianças.
Mais um ano e pouco, era avó de novo. Nascia Olivia, a neta que de tanto gostar dela, se autodenominava “sua filhinha”. Que alegria sentia ao esperar a neta chegar sozinha no rio de janeiro, depois de mais de oito horas de viagem de ônibus, para passar as férias com a avó. E então, por último, nascia Felipe, o neto caçula que na praia do Leme, logo fazia novas amizades, lembrando o jeito de ser da avó.
Os anos passaram e uma nova geração chegou com a pequena Luisa. Mais uma vez, a sua casa encheu-se de risadas infantis, de músicas de roda, de bonecas, de roupinhas de lã feitas com tanto amor. E depois nascia João Pedro, com cachinhos herdados da mãe Fabiana, mas que lembram tanto a filha Toy, criança com profundos olhos azuis.
Odete...    Durante mais de oito décadas vem mostrando que o espírito jovem pode e deve ser mantido.
Odete...   Ao longo de sua vida, ganhou outras filhas – como Idalina, Idaicy e tantas outras.
Odete.... Avó de tantos outros netos que nas festas estão sempre rindo de suas brincadeiras e ouvindo suas estórias.
Odete.... Exemplo de força e alegria. Que amanhã estará abrindo mais uma vez a janela, arrumando a sua roupa e se preparando para mais um dia que pode trazer telefonemas, surpresas, visitas e muitas risadas.
Odete.... Muito obrigado por você existir! Parabéns pelo seu dia de aniversário!