A casa da família Miessva, em alguns momentos, também
recebia sobrinhos e sobrinhas adolescentes ou adultos, que precisavam de um
abrigo em São Paulo para iniciar a vida estudantil ou profissional. Foi assim
que Idaicy, uma das sobrinhas mais velhas – e prima querida das meninas da casa
– chegou para morar na Av. Santo Amaro com seus 18 anos de idade. Tinha muita afinidade
com a prima Toy, com quem dividia o quarto. Vera tinha seu próprio quarto –
adaptado em um terraço deste quarto das duas. Ali ela lia até de madrugada e às
vezes perdia a hora para ir ao colégio. Ou então, saía, e depois voltava mais
cedo e dormia mais um pouco – o que levou papai a tirar a porta deste terraço.
Mas ela não se perturbou. Colocou um armário no lugar e só eu, que era a
caçula, além dela, entrava naquele espaço, que para mim era um pouco mágico.
Durante o tempo que ali morou, Idaicy aprendeu uma nova
rotina de vida. Na casa, todo mundo tinha que ajudar. Cada dia era a vez de uma
das meninas a lavar a louça do almoço e jantar. Nos primeiros dias, mamãe disse
para as meninas:
- Hoje é dia da Idaicy lavar a louça!
Assustada, pois era algo que não fazia em casa, ela respondeu
logo que não sabia e recebeu a resposta típica da tia:
- É muito fácil, aprenda!
Além de aprender a lavar louça, ela aprendeu a arrumar a
cama, a casa e a seguir os horários – brincadeiras, ouvir músicas, assistir
televisão, preparar lanches, ir para a cama. Odette ensinava a cozinhar – no
estilo dela – fazia a comida e a pessoa ao lado tinha que ser esperta, pois precisava aprender e ajudar ao mesmo tempo.
Graças aos contatos de Ignacio, Idaicy conseguiu um emprego
no Banco Moreira Sales. Às vezes ele dava um pouco de medo nos sobrinhos –
era quieto, ouvia muito, falava o essencial. Mas quando ria, as barreiras ruíam
e todos acabavam se encantando com seu jeito e também com o seu conhecimento, pois adorava ler e conversar a respeito – hábito que passou para as filhas e cada uma, ao seu
jeito, passou a gostar de leitura. Toy, por exemplo, tinha um limite – não lia nada
maior que o largura do dedo indicador (e tinha longos e finos dedos!).
Naquela casa, Ignacio trabalhou por um período, até alugar
uma sala em cima do cinema Radar – na própria avenida Santo Amaro. Com o
crescimento dos negócios, alugou a segunda sala e já tinha quase 60 clientes.
Contratou então dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette
continuava ajudando no escritório, fazendo algumas atividades – como razão e
diário dos clientes – de noite.
Para atender aos crescentes pedidos dos clientes, ele passou
a trabalhar muito – às vezes ia até as duas horas da manhã e depois o Walter
continuava as tarefas pela manhã. Visitava os clientes e coordenava tudo. Isto
fez com que mudasse sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo.
Certo dia, no final dos anos 50 e início dos anos 60, chegou
em casa com dor no braço e no lado esquerdo. Abraçou Odette e disse:
- Vou deitar um pouco, que não estou aguentando de dor.
Como ele não melhorou, Odette logo chamou o médico da família, dr.
Almeida. Ele examinou e avisou:
- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!
O táxi foi chamado e foram para o
hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o
marido e telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que retornasse. As
meninas voltaram da escola e ela explicou a situação:
- Não quero drama e vocês têm que
me ajudar.
No hospital, o médico disse que talvez
ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se ele superasse este período,
teria que fazer um tratamento prolongado.
Odette lembra aquela noite:
- Para mim, foi um choque. Ele passou
mal de noite e depois da injeção, teve falta de ar. Mas de madrugada,
dormiu e quando o dia amanheceu sua cor tinha voltado ao rosto. Ele perguntou
das meninas, já querendo ir para casa:
- Eu fico só hoje, não é? Se eu
ficar mais, Odette, você vai para o escritório.
E ela continua:
- Ao sair do hospital, precisou
fazer repouso em casa e ficou três meses afastado do escritório. Eu me revezava entre o escritório e a casa. Tive amigos
que nos ajudaram, como o Armando, amigo meu de juventude, vizinhos, parentes. Foi
um dos períodos mais difíceis de minha vida. Ignácio era o esteio para mim, e,
de repente, tive que assumir muitas frentes e ele não podia fazer nada pois naquela época, quem tinha infarto precisava ficar de repouso absoluto.
A partir daquele momento, muitas
mudanças ocorreram na vida dos dois que, direta ou indiretamente, refletiram-se em todos. O que não mudou foi a determinação em preservar a união na família e deixar as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de
um apoio.