sábado, 6 de julho de 2013

Tempos difíceis

A casa da família Miessva, em alguns momentos, também recebia sobrinhos e sobrinhas adolescentes ou adultos, que precisavam de um abrigo em São Paulo para iniciar a vida estudantil ou profissional. Foi assim que Idaicy, uma das sobrinhas mais velhas – e prima querida das meninas da casa ­– chegou para morar na Av. Santo Amaro com seus 18 anos de idade. Tinha muita afinidade com a prima Toy, com quem dividia o quarto. Vera tinha seu próprio quarto – adaptado em um terraço deste quarto das duas. Ali ela lia até de madrugada e às vezes perdia a hora para ir ao colégio. Ou então, saía, e depois voltava mais cedo e dormia mais um pouco – o que levou papai a tirar a porta deste terraço. Mas ela não se perturbou. Colocou um armário no lugar e só eu, que era a caçula, além dela, entrava naquele espaço, que para mim era um pouco mágico.
Durante o tempo que ali morou, Idaicy aprendeu uma nova rotina de vida. Na casa, todo mundo tinha que ajudar. Cada dia era a vez de uma das meninas a lavar a louça do almoço e jantar. Nos primeiros dias, mamãe disse para as meninas:
- Hoje é dia da Idaicy lavar a louça!
Assustada, pois era algo que não fazia em casa, ela respondeu logo que não sabia e recebeu a resposta típica da tia:
- É muito fácil, aprenda! 
Além de aprender a lavar louça, ela aprendeu a arrumar a cama, a casa e a seguir os horários – brincadeiras, ouvir músicas, assistir televisão, preparar lanches, ir para a cama. Odette ensinava a cozinhar – no estilo dela –  fazia a comida e a pessoa ao lado tinha que ser esperta, pois precisava aprender e ajudar ao mesmo tempo.
Graças aos contatos de Ignacio, Idaicy conseguiu um emprego no Banco Moreira Sales. Às vezes ele dava um pouco de medo nos sobrinhos – era quieto, ouvia muito, falava o essencial. Mas quando ria, as barreiras ruíam e todos acabavam se encantando com seu jeito e também com o seu conhecimento, pois adorava ler e conversar a respeito – hábito que passou para as filhas e cada uma, ao seu jeito, passou a gostar de leitura. Toy, por exemplo, tinha um limite – não lia nada maior que o largura do dedo indicador (e tinha longos e finos dedos!).   
Naquela casa, Ignacio trabalhou por um período, até alugar uma sala em cima do cinema Radar – na própria avenida Santo Amaro. Com o crescimento dos negócios, alugou a segunda sala e já tinha quase 60 clientes. Contratou então dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette continuava ajudando no escritório, fazendo algumas atividades – como razão e diário dos clientes – de noite.  
Para atender aos crescentes pedidos dos clientes, ele passou a trabalhar muito – às vezes ia até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas pela manhã. Visitava os clientes e coordenava tudo. Isto fez com que mudasse sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo. 
Certo dia, no final dos anos 50 e início dos anos 60, chegou em casa com dor no braço e no lado esquerdo. Abraçou Odette e disse:
- Vou deitar um pouco, que não estou aguentando de dor.
Como ele não melhorou, Odette logo chamou o médico da família, dr. Almeida. Ele examinou e avisou:
- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!
O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido e telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que retornasse. As meninas voltaram da escola e ela explicou a situação:
- Não quero drama e vocês têm que me ajudar.
No hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se ele superasse este período, teria que fazer um tratamento prolongado.
Odette lembra aquela noite:
- Para mim, foi um choque. Ele passou mal de noite e depois da injeção, teve falta de ar. Mas de madrugada, dormiu e quando o dia amanheceu sua cor tinha voltado ao rosto. Ele perguntou das meninas, já querendo ir para casa:
- Eu fico só hoje, não é? Se eu ficar mais, Odette, você vai para o escritório.
E ela continua:
- Ao sair do hospital, precisou fazer repouso em casa e ficou três meses afastado do escritório. Eu me revezava entre o escritório e a casa. Tive amigos que nos ajudaram, como o Armando, amigo meu de juventude, vizinhos, parentes. Foi um dos períodos mais difíceis de minha vida. Ignácio era o esteio para mim, e, de repente, tive que assumir muitas frentes e ele não podia fazer nada pois naquela época, quem tinha infarto precisava ficar de repouso absoluto.

A partir daquele momento, muitas mudanças ocorreram na vida dos dois que, direta ou indiretamente, refletiram-se em todos. O que não mudou foi a determinação em preservar a união na família e deixar as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio.