quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Presença feminina, sempre


Odette e Inacio ficam apenas alguns dias completamente sós. Logo chegam os pais de Odette para visitá-los, apreciando o apartamento e a vida do casal. O apartamento, ainda que fosse pequeno, abriga sempre os irmãos, irmãs e outros parentes. Carlito, um dos irmãos mais jovens, ali almoça todo dia.  
Aos poucos, Odette vai conhecendo as lojas, o Largo do Arouche e a Praça da República. São Paulo, naquela época, é semelhante às capitais europeias – homens de chapéu, mulheres com vestidos um pouco abaixo dos joelhos, cinturados.  No rádio, as notícias da II Guerra.
Então, na passagem para o ano de 1943, Odette fica enjoada com a comida da ceia. Em janeiro, vai ao dr. Barbosa  - médico amigo da família - que confirma a gravidez. Desnutrida, precisa tomar muitas vitaminas pois – como todas as noivas – tinha feito um rígido regime para casar. Depois de três meses, o enjoo passa e tudo fica melhor. No começo da gravidez, em algumas noites, tinha dificuldade em dormir. Certa noite, Inácio perguntou:
­– Odette, você não está dormindo. Por que? Está com vontade de comer alguma coisa?
- Amanhã, quando você sair, me compra uma empadinha.
Ele se levanta, troca de roupa e sai às três horas da manhã. No Largo do Arouche, há sempre alguns bares abertos durante toda a noite. Logo, volta com empadinhas e carinhosamente, as entrega:
– Agora, Odette, você pode comer a empadinha e dormir.
E foi o que ela fez, com muito prazer e rindo.
Para ajudar no nascimento, Sebastiana vem de Garça, com Odila, irmã mais velha de Odette. Quando as três estavam conversando, Odette vai ao banheiro e vem a primeira cólica. Calma, vira para o marido:
– Inácio, vamos para o hospital, que eu vou ter o neném.
Com as malas que já estavam prontas, pegam um taxi para o hospital Santa Cecília, ali perto. No ponto de táxi, tinham feito uma aposta – menino ou menina?  
Logo que chegou ao hospital, as contrações ficam mais fortes e o parto é tão rápido que não dá tempo de avisar o dr. Barbosa. Uma parteira alemã, toda perfumada e bonita, ajudou no nascimento da menina com cabelos negros, olhos claros e 3,5 quilos. Quando o dr. Barbosa chegou, um baixinho com forte sotaque caipira, já entrou no quarto perguntando:
Uai, porque não me chamou antes? É uma menina, como vai chamar?
– Vai se chamar Antonia, responde a jovem mãe.
– Mas este nome não é bonito. Uma menina tão bonita com nome de Antonia? Não gosto deste nome, respondeu enfaticamente o médico.
– O nome é por causa de uma promessa que eu fiz para Santo Antonio, para que se eu tivesse um marido paciente, o primeiro filho iria se chamar Antonio ou Antonia, responde mais enfaticamente a mãe.
Era 13 de setembro de 1943, e a menina é registrada com o nome de Antonia Maria Miessva, o que gera uma discussão no casal, pois ela recebe apenas o sobrenome paterno. Logo se torna a querida dos tios, em especial o tio Joãozinho, que adora os cachinhos pretos daquela menina sorridente. Odila fica mais alguns meses pois estava noiva e precisava de apoio para o seu casamento com Geraldo, que era dez anos mais moço que ela, o que não era comum naqueles anos. Em uma cerimônia simples, eles foram seus padrinhos de casamento.
Meses depois, a mãe de Inacio, Catarina, vem do Paraná para conhecer a neta e a nora. E é Odette que conta:
– Eu sabia que eram polacos, que falavam pouco mas foi estranho ouvir aquela lingua pois entre eles, só falavam polonês. Ela chegou com um lencinho preto na cabeça, acompanhada por um dos seus genros. Quando eu a conheci, pude entender melhor o Inácio. Ele tinha outra cultura, uma outra formação.
Além da família, a presença de muitos amigos e amigas sempre foi constante. Uma delas é Julia. Naquela época, ela trabalhava na Feira das Nações, uma loja de secos e molhados no Largo do Arouche. Ela e o marido foram os padrinhos de batismo de Antonia Maria, que se tornou conhecida como Toy.
Meses depois, um dia, Inácio olha para sua mulher e diz com segurança:
– Odette, você está grávida!
Eu ri e respondi: Inácio, deixa de brincar!
Na semana seguinte, fui ao dr. Barbosa que examinou e confirmou:
– Você está grávida outra vez e vai precisar de vitaminas para ficar forte.
Ainda bem que contavam também com Mimi, a empregada que ajudava em casa e com os bebês, ficando naquela família três anos.
Um ano e um mês se passaram e, em 30 de outubro de 1944, nasce a segunda filha – Vera Cecília de Aguirre Miessva , uma ruivinha de olhos azuis e que torna-se a companheira da irmã mais velha desde pequenina. Cada uma dormia ao lado de um dos pais. Quando choravam de noite, Odette ficava com Antonia Maria e Inácio cuidava de Vera Cecília. Estes laços das meninas com os pais se fortaleceram ao longo de todas as suas vidas.­  
Outros amigos desde o início do casamento eram o Elias e a Adma, e sua irmã Lenira. Elias, que era cliente do Inácio, e as amigas Adma, Lenira e Erlite ajudaram o casal a criar as meninas. Nesta época, havia racionamento de farinha, entre outros produtos, por causa da guerra e ninguém tinha pão, como conta Odette:
– Lenira comprava bolacha importada de trigo, eu passava na máquina de moer carne e virava farinha de novo e fazíamos pão para as meninas que adoravam a “tia Lelila”.


As duas meninas sempre juntas...