segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Piscina, bailes, namorados e muito mais!


Ser sócio do Esporte Clube Pinheiros foi um divisor de águas na nossa casa. Eu e Rosely íamos de bicicleta, eu na garupa e ela driblando carros nas ruas do bairro, passando na ponte estreitinha – que chamávamos de pinguela – em cima do córrego para depois pegar a Rua Joaquim Floriano até a Tabapuã. Nos domingos, papai ia fazer sauna enquanto ficávamos na piscina. Almoçávamos lá e eu fiquei fã da biblioteca, quando aprendi a gostar de Agatha Christie e livros de suspense. Às vezes levava dois livros no sábado e já devolvia um no domingo. Foi no Clube Pinheiros que Toy e Vera conheceram seus namorados Peter e Enrico.  
Na mesma época, outro acontecimento também mudou nossas vidas – a chegada de um carro em casa, mais especificamente da Kombi! Mamãe já dirigia havia três meses – como não tinha carro, ela passeava com o carro da autoescola no Parque do Ibirapuera. Eu fui algumas vezes nas aulas e era divertido ver ela compenetrada em fazer as manobras e estacionar direitinho nas vagas, sem derrubar as balizas. Então, tio Zuza arrumou uma Kombi – com um pequenino problema... os freios não estavam bons, o que foi descoberto quando fomos todos nós seis mais algumas amigas das meninas para Santos . Como o carro não respondeu totalmente ao freio, a mamãe segurou a tal Kombi na marcha e no muque! Aí tivemos o acidente da Kombi contra um bonde. Mamãe estava dirigindo e no carro estávamos eu, Vera e os amigos Edna e Edson.  O motorneiro do bonde ficou confuso, avançou um sinal, não deu tempo e, quando vimos, ele entrou direto no carro. Por sorte, ninguém saiu muito ferido, além do joelho machucado da Vera. Logo depois, papai comprou o azul Aero Wyllis 1962.
A Toy começou a trabalhar na Kibon – o paraíso para nós!  Ela fez os testes para secretária e deu a notícia por telefone para mamãe, que trabalhava algumas horas por dia no escritório:
- Mamãe, passei nos testes! E vou poder levar bastante sorvete para casa!
Quinze dias depois, ela trouxe três latas de sorvete. Mamãe estava chegando a pé do escritório e avistou de longe um grupo de crianças em frente de casa. Ali, usando o muro como apoio, eu e a Toy distribuíamos sorvete para todos que moravam perto. Mas o que fazia sucesso mesmo era a distribuição do picolé chica bom e mais ainda quando ela trazia tortas de sorvete embaladas com gelo seco, que eu colocava na água para ver a fumaça branca.
 
Surpresa no Baile de Aleluia

O Clube Pinheiros também foi uma mudança na vida da Rosely – que fez novas amizades ali. Uma delas era a Sueli, uma amiga altíssima e que mergulhava comigo em uma das piscinas menores brincando de golfinho.  Em um dos bailes de Aleluia que antecediam a Páscoa, meus pais e os pais da Sueli ‘reservaram uma mesa’ – pagaram por uma mesa e quatro lugares para ter um lugar para sentar durante a noite toda, tomando refrigerante ou cerveja e comendo salgadinhos. Papai tinha ficado em casa comigo. E então mamãe e a dna. Maria Amélia, mãe da Sueli, estavam ali sentadas conversando quando viram o Peter, que na época estava namorando a Sueli, passar de mãos dadas com a Toy, sorrindo para ela que olhava com aqueles olhos claros e sorria de forma tímida (algo que ela não era mesmo). Aí Odette olhou desconcertada para a amiga Maria Amélia, que calmamente disse: 
- Odette, a gente a gente não viu nada, não vamos falar nada e não perguntar nada. Isto é o melhor a fazer, pois o assunto é com eles e não tem nada a ver com nossa amizade.
Na mesma época, a Vera conheceu também o Enrico. Só que ela entendeu que o nome dele era Pascoal. E certo dia ficou chamando-o por este nome e, claro, ele não respondeu. Aí quando o encontrou, questionou porque ele não tinha conversado com ela no outro dia e ele tranquilamente, respondeu: Mas meu nome não é Pascoal, é Enrico.  
Eles começaram a jogar tênis juntos. Certo domingo, Vera mostrou aquele jovem  esbelto, magro, de cabelo curto e sorriso aberto para mamãe, que respondeu na hora:
- Mas, ele é muito criança, Vera!
Vera riu divertidamente, respondendo:
- Ah, mãe. Ele parece criança, mas não é. É até mais velho que eu! (um ano a mais, na verdade).
O Clube também reservou a boa surpresa para Odette ao encontrar o velho amigo Armando, que era sócio também e ali jogava bocha. E durante décadas, eles sempre se encontravam ali, para conversar durante horas nos bancos espalhados pelo Clube.
E assim se passaram os anos de namoro das meninas mais velhas – foram quatro a cinco anos de festas no Clube, lanches aos sábados – quando o primo Fernando ia contar detalhadamente os filmes que assistia – e jantares uma vez por semana com a presença do Enrico. Até que, no Natal de 1966, logo depois da prece, o Peter pediu para falar algumas palavras. Todos acharam que seria mais uma prece. Ele ficou sério e disse:
- Sr. Ignácio e dna. Odete, eu peço licença para ficar noivo da Toy.  
Todo mundo ficou emocionado e surpreso. Papai ficou mudo. Então, o Peter colocou a aliança na mão direita da Toy, que não pode fazer o mesmo, pois a aliança dele não tinha ficado pronta!
No dia seguinte, Odette ligou para os sobrinhos e a festa continuou, com a família reunida para celebrar o noivado. Na semana seguinte, foi o almoço para a família do Peter, com a presença de sua avó – conhecida como Oma Oma, que disse estar muito contente com a escolha do neto.
Então, no início de janeiro, começaram os preparativos para o primeiro casamento na minha família.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um novo estilo de vida?

O final dos anos 1950 e início dos anos 1960 não foram fáceis mesmo, mas a ajuda dos amigos não faltou em nenhum momento. Elias e Adma, amigos desde o início do casamento de Inácio e Odette, estiveram ao seu lado e por uma triste coincidência, pois no mesmo dia que houve o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e precisou cortar a perna no mesmo hospital. Odette lembra que eles iam para o escritório, saindo do hospital, e choravam ali com a amiga Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso – amizade cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da irmã mais velha Odila.
Em 1959, quando estava chegando o Natal, um casal americano  - um dos clientes do escritório Braspar de Contabilidade - nome dado por Inácio para seu negócio unindo as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), foi visitar Odette. Ele chegou um pouco sem graça, mas muito objetivo:
– Dna. Odete, a Elisabeth mandou pedir licença para dar um presente de Natal para as meninas e eu quero pedir autorização da senhora para mandar um presente para sua casa.
E Odette lembra:
- Imagina, naquele Natal, eles mandaram entregar uma cesta enorme tamanho 24 e presentes para as meninas! 
As cestas de Natal eram presentes especiais naquela época – feitas de vime e com tudo o que se podia imaginar para uma ótima ceia ali era colocado, conforme o tamanho) . 
Os dois anos seguintes foram de muito trabalho e mudanças na vida das meninas. Vera e Toy continuaram estudando. Vera foi para o Liceu Eduardo Prado. Toy foi para o Mackenzie, onde estudou secretariado. Rosely entrava na adolescência e também foi trabalhar na loja em frente da casa Um dos dias marcantes foi o meu aniversário de cinco anos, em 1961. As irmãs, amigas e primas arrumaram a casa e o motivo da festa foi a Casa dos Três Porquinhos. No bolo, Odette fez uma casinha montada com palitos de chocolate, a grama era verde e os porquinhos do presépio de Natal deram uma graça para o bolo. Nas paredes, colocaram grandes desenhos pintados. Na cozinha, olho de sogra, brigadeiro, muitos doces e balas, salgadinhos, tudo em um ambiente alegre de celebração.
Era o final de uma etapa. Meses depois, nos mudávamos para a rua João Lourenço, pois iriam derrubar as casas da Av. Santo Amaro para construir um prédio de apartamentos. 
A nova casa tinha um muro de pedras, portão de grande baixo, no fundo uma garagem enorme e dois pequenos quartos. A residência tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha onde havia uma mesa em que todos se encontravam no jantar para contar as novidades. 
Em um quarto com janela para o jardim ficavam eu e Rosely. Dormíamos em um beliche, eu na parte de cima. Toy e Vera ficavam no quarto que dava para o quintal dos fundos. Papai e mamãe no quarto do meio, que dava para um pequeno jardim de inverno. Na Vila Nova Conceição, foram feitas boas amizades – eu logo passei a ter uma turma na rua, com muitos amigos com quem brincava na rua ou na pracinha a poucas quadras dali, perto da rua Afonso Brás. 
Quando Inácio voltou para o escritório, Odette continuou a trabalhar. Vendia enxovais para noivas, que buscava na rua São Caetano e também costurava sob encomenda, com a amiga Jamile que morava pertinho. Os primeiros vizinhos naquela rua foram os Laub, que tinham filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. Lanches eram feitos em casa e os primos e tios continuavam a visitar sempre a família, especialmente nos finais de semana.

Então, um fato mudou a vida de todos nós, ao ficarmos sócios do Clube Pinheiros. Mas estas são outras histórias também gostosas para se lembrar!