segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma nova matriarca para novas gerações

O final de 1956 foi celebrado com a chegada das meninas Toy e Vera que voltaram definitivamente do colégio interno das freiras, da distante Garça, onde ainda moravam os avos João e Sebastiana. Logo depois, era a vez dos dois velhinhos também se mudarem para São Paulo, em uma casinha da Vila Nova Conceição preparada especialmente pelos filhos para recebê-los, para uma nova vida em São Paulo. As meninas da casa da Av. Santo Amaro visitavam os avos e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odete e cunhadas.
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. E eu, a pequena Lelena, aos seis meses, fiquei com meus padrinhos Helena e Mattos – ainda que se chamasse Francisco, ninguém o chamava assim. Eram amigos antigos e vizinhos de meus pais há alguns anos na Av. Santo Amaro. Netinho, seu filho, brincava com a minha irmã  ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhoras. E em seis de agosto de 1957, Odete estava com ela, como fazia às tardes. Deitada, magrinha como sempre foi em sua vida toda, virou-se para a filha e perguntou:
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha?
- Arranjo, mamãe.
Neste momento, Odete mostrou o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, já sei que é o fim, não é?
- Minha mãe, a senhora é que sabe. Seu organismo não está aguentando mais.
- Odete, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino para a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Vou cuidar deles.  
E Odete ficou ali, ao lado, depois de aplicar mais uma injeção. Algum tempo depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odete, eu já vou, já vou, já vou...
E ela assumiu o papel de nova matriarca da família, como lembra:
- Eu me sentia preparada para assumir todos, pois tinha Ignácio ao meu lado, que gostava de meus irmãos. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar em casa, ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de um abrigo. Foi assim com Namá e Lucila, quando ficaram desempregados por seis meses e precisaram morar em nossa casa. Foi assim com Rui e Tibi, quando moraram dez meses conosco. Ele nunca deixava faltar nada. E foi assim com meu pai, que ficou em casa por um tempo. Os dois se davam bem e riam muito juntos. De manhã, papai brincava com a netinha Lelena, e nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida na fazenda. 
As mães destes jovens se conheceram e se tornaram amigas. Letícia, que tinha um casa de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera em sua casa, com seus filhos Edna e Edson; Celina, que morava perto, tinha a Valéria, que era amiga da Toy, e Ione era mãe de Stela, que morava também ali perto.
Eu, que cheguei por último nesta família, fui criada tanto pela minha mãe quanto pelas minhas irmãs mais velhas, que me levavam para onde iam e me incluíam em tudo. Isto acontecia especialmente se o programa era assistir um filme na televisão, atração nova para a família, vizinhos e amigos. 
Ignácio chegava do trabalho e via todo mundo chorando e costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odete? Será que nesta televisão não tem algo mais alegre?
Depois do jantar, Odete costumava costurar e ia dormir mais tarde. E acordava mais tarde. O café da manhã era por conta de Ignacio e das meninas.  
Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado, Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam em casa: Edna, Edson, Stella, Valeria, para estudar com Toy e Vera.
Vera sempre foi muito brincalhona. Ela e Edna se divertiam e eram muito parecidas. Às vezes, acenavam para um táxi. E quando ele parava, uma perguntava:
- Está livre?
Quando o motorista respondia que sim, as duas respondiam juntas, rindo:
- Então, viva a liberdade!
Outra brincadeira preferida era passar trotes por telefone nas noites que ficavam estudando.
A vida naquela casa era mesmo agitada. Certo dia, um senhor bateu na porta e Odete foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
- E porque o senhor quer vender a perua? Está muito barato...
- É que o peru morreu e eu fiquei só com a perua.
E, para ajudar, ela comprou e colocou a perua no quintal. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas ou outras delícias que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odete, você comprou uma perua doente! Está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo.
- Ah, então faz isto, que eu vou sentar aqui para ver.
E ela fez exatamente assim e depois soltou a perua no quintal, pensando consigo mesmo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado e pensou que até parecia piado de perú e lembrou do bichinho que quase tinha morrido! Foi correndo no quintal e lá estava a perua, maravilhosa.  Mas a tal perua não ficou ali muito tempo, pois o Zuza a levou para o sítio e perguntou:
- Quantos frangos você quer pela perua?
Na próxima visita, Zuza trouxe três frangos, dos melhores que tinha. Depois comprou um peru e fez uma criação que chamava a atenção de todos. E de vez em quando, aparecia com um peru, que Odete preparava e todos iam lá naquela casa enorme, para jantar.   
Assim foi o início dos anos 1960 na minha família e pelos que a cercavam. Permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar. Mas logo isto mudou.