sábado, 28 de dezembro de 2013

De pai para filha caçula

Passado o casamento da Toy e do Peter, seguimos a vida na rua João Lourenço. Ali, aprendi a dançar dois para lá e dois para cá com meu pai aos dez anos – e aproveitei para repassar as dicas nas festinhas na casa de Silvinha, minha amiga e vizinha – ao som das músicas de Roberto Carlos, em plena Jovem Guarda! Em casa, os Beatles já eram ouvidos pela Rosely, e outras músicas sempre estavam na vitrola, servindo como inspiração para as grandes limpezas promovidas pela Odette, e testando a paciência de Ignacio, que gostava de ópera. E também de livros – afinal, quando tinha 16 anos, já havia lido mais de três mil livros no colégio internato polonês de Vila Conceiçãozinha – hoje bairro de Santa Felicidade, local de Curitiba para onde se dirigiram os imigrantes poloneses de 1850 em diante. 
Homem que sabia ouvir, gostava também de ver televisão – principalmente noticiários e seriados de ficção científica. Foi com ele que passei a gostar de Star Trek, Perdidos no Espaço, Histórias do Sobrenatural. Em vários sábados, me levava ao cinema – no Cine Vila Rica ou Cine Radar – pertinho de casa. Muitas vezes acabava dormindo durante as duas horas, mas sempre estava de bom humor nestes passeios.
Na casa da João Lourenço, minha mãe me ensinou a ler em voz alta e a dar valor à pontuação  - “há diferença entre ponto e vírgula e vírgula”, dizia enfaticamente! “Quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para o primeiro e menor para o segundo”.
Quando não estava na escola ou brincando com os amigos na rua, ia para o escritório de contabilidade de Ignacio, que ficava na Av. Santo Amaro, 427. Lá aprendi a gostar de mesas de escritório, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone, e da convivência com os papeis. Aprendi ali que cada documento tinha um lugar certo e que todos deveriam saber qual é este lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento.  Daquele ambiente, guardo a organização por pastas, arquivos, nomes de clientes nos escaninhos de madeira. E do precursor da fotocópia!  Quando precisava copiar o balanço mensal do cliente – que era datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, existia um método que hoje pode parecer da idade da pedra: pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava álcool nesta folha de gelatina, esperava secar segundos, colava na folha que devia ser copiada e passava álcool em cima. Depois colava a folha de gelatina no livro e fechava. Então, colocava-se o livro em um instrumento de ferro, em cima havia uma parte que girava e pressionava o livro. Aí ficavam algumas horas e – enfim – o balanço estava no livro.
Certo dia, depois do casamento da Toy, nos meus 11 anos, quando já exercia as atividades de office-girl no escritório, separando as notas fiscais para o registro do balanço, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas, meu pai me mandou ir registrar um livro na Secretaria da Fazenda, no centro da cidade, perto da Praça da Sé.
E lá fui eu, de ônibus, com o tal livro. Cheguei no prédio, dei uma volta, perguntei para uma pessoa, e nada de achar a tal seção. Na minha lógica, uma vez que não tinha achado a seção, era só voltar para o escritório e explicar a situação. E assim eu fiz. Ele, com a calma que muito caracterizou nossa convivência, disse:
-  “Não há problema nenhum, filha. Você vai voltar lá amanhã, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito”.
Naquele momento, recebia minha primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

1967, o início de uma nova vida

Os preparativos para o casamento da primeira Miessva começavam a tomar forma, enquanto a rotina seguia na família, dividida entre o trabalho, estudo e lazer. No Clube Pinheiros, Vera continuava jogando tênis com Enrico e aprontando ‘travessuras’, como quando no baile de Aleluia, se disfarçou de ‘nega maluca’. A ruiva mais velha da casa, de olhos azuis, passou pasta preta no rosto e pescoço,  vestiu meias e luvas pretas, colocou uma peruca de lã preta e foi achando que não seria reconhecida! Enrico, fantasiado de homem da caverna, no meio do baile a encontrou no meio de tanta gente – e ainda disse:
- Veruska, como você achou que não ia reconhecer você?!?
Naquele ano de 1967, Vera também ficou noiva em um jantar que reuniu as famílias Miessva e Rastelli. Annamaria Rastelli tornou-se amiga de Odete, e Ignácio e Dino costumavam conversar nos almoços de família.
A organização do casamento da Toy com Peter acabou envolvendo amigos e parentes.  O casamento aconteceria na Igreja do Perpétuo Socorro. Odette e a amiga Jamile (que costurava com Odette) compraram o tecido para o vestido, mas a Toy queria uma cauda. Por sorte, uma amiga da Jamile estava vendendo o vestido de noiva com um cauda toda bordada a mão. Definida a grinalda, ela escolheu ter um véu franzido cobrindo também a cauda. A gola era toda bordada e luvas brancas foram compradas para completar o arranjo.
Os vestidos das irmãs Vera, Rosely e Lena foram feitos também por Odette e Jamile. Verde para Vera, azul para Rosely e cor de rosa para Lena. Tudo em tecido brocados ou cetim, feitos com carinho e capricho. 
Então, foi a vez do ensaio em um dos sábados que antecederam o casamento. A amiga Celina orientou Ignácio e Toy:
- Devagarinho, sr. Inácio. Pé compassado, pé compassado.
Max, que chegou naquele momento em uma de suas visitas às primas, ficou emocionado ao ver a Toy tão compenetrada.
A festa foi organizada na casa da Rua João Lourenço. Os quartos se transformaram em salas – a sala dos presentes, a do bolo - o jardim de inverno e todo o quintal foram abertos para receber as 200 pessoas.
O casamento civil também aconteceu naquela casa, e entre os padrinhos, estavam Vera e Enrico.
E chegou o grande dia – 7 de julho de 1967.
No altar, ao lado de Odette, os amigos Ligia e Milton. Ela entrou na igreja lotada pontualmente às 8 horas da noite, como lembra Odette:
- Eu estava nervosa e ao ver a Toy com Ignácio, fiquei mais ainda! E então, em um relance, ao olhar para todos que ali estavam, vi atrás de uma das pilastras, o Eduardinho chorando. Aquele rapaz tinha sido namorado dela por alguns anos e me deu uma tristeza ao ver alguém lamentando um amor frustrado.

Ela continua lembrando: 
 - Depois da festa, acompanhamos a Toy e o Peter para o aeroporto – eles iam passar a lua de mel no Rio de Janeiro. Ao se despedir ela chorava muito e eu disse: Mas, Toy, você vai passear com o Peter, em lua de mel, vai se divertir muito, minha filha!

Quando o avião decolou, eu senti um arrepio de frio, não passei bem – foi como se tivesse uma intuição que algo iria mudar – e muito  - em nossas vidas! 







E sempre vale a pena recordar o momento das quatro irmãs juntas!

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Piscina, bailes, namorados e muito mais!


Ser sócio do Esporte Clube Pinheiros foi um divisor de águas na nossa casa. Eu e Rosely íamos de bicicleta, eu na garupa e ela driblando carros nas ruas do bairro, passando na ponte estreitinha – que chamávamos de pinguela – em cima do córrego para depois pegar a Rua Joaquim Floriano até a Tabapuã. Nos domingos, papai ia fazer sauna enquanto ficávamos na piscina. Almoçávamos lá e eu fiquei fã da biblioteca, quando aprendi a gostar de Agatha Christie e livros de suspense. Às vezes levava dois livros no sábado e já devolvia um no domingo. Foi no Clube Pinheiros que Toy e Vera conheceram seus namorados Peter e Enrico.  
Na mesma época, outro acontecimento também mudou nossas vidas – a chegada de um carro em casa, mais especificamente da Kombi! Mamãe já dirigia havia três meses – como não tinha carro, ela passeava com o carro da autoescola no Parque do Ibirapuera. Eu fui algumas vezes nas aulas e era divertido ver ela compenetrada em fazer as manobras e estacionar direitinho nas vagas, sem derrubar as balizas. Então, tio Zuza arrumou uma Kombi – com um pequenino problema... os freios não estavam bons, o que foi descoberto quando fomos todos nós seis mais algumas amigas das meninas para Santos . Como o carro não respondeu totalmente ao freio, a mamãe segurou a tal Kombi na marcha e no muque! Aí tivemos o acidente da Kombi contra um bonde. Mamãe estava dirigindo e no carro estávamos eu, Vera e os amigos Edna e Edson.  O motorneiro do bonde ficou confuso, avançou um sinal, não deu tempo e, quando vimos, ele entrou direto no carro. Por sorte, ninguém saiu muito ferido, além do joelho machucado da Vera. Logo depois, papai comprou o azul Aero Wyllis 1962.
A Toy começou a trabalhar na Kibon – o paraíso para nós!  Ela fez os testes para secretária e deu a notícia por telefone para mamãe, que trabalhava algumas horas por dia no escritório:
- Mamãe, passei nos testes! E vou poder levar bastante sorvete para casa!
Quinze dias depois, ela trouxe três latas de sorvete. Mamãe estava chegando a pé do escritório e avistou de longe um grupo de crianças em frente de casa. Ali, usando o muro como apoio, eu e a Toy distribuíamos sorvete para todos que moravam perto. Mas o que fazia sucesso mesmo era a distribuição do picolé chica bom e mais ainda quando ela trazia tortas de sorvete embaladas com gelo seco, que eu colocava na água para ver a fumaça branca.
 
Surpresa no Baile de Aleluia

O Clube Pinheiros também foi uma mudança na vida da Rosely – que fez novas amizades ali. Uma delas era a Sueli, uma amiga altíssima e que mergulhava comigo em uma das piscinas menores brincando de golfinho.  Em um dos bailes de Aleluia que antecediam a Páscoa, meus pais e os pais da Sueli ‘reservaram uma mesa’ – pagaram por uma mesa e quatro lugares para ter um lugar para sentar durante a noite toda, tomando refrigerante ou cerveja e comendo salgadinhos. Papai tinha ficado em casa comigo. E então mamãe e a dna. Maria Amélia, mãe da Sueli, estavam ali sentadas conversando quando viram o Peter, que na época estava namorando a Sueli, passar de mãos dadas com a Toy, sorrindo para ela que olhava com aqueles olhos claros e sorria de forma tímida (algo que ela não era mesmo). Aí Odette olhou desconcertada para a amiga Maria Amélia, que calmamente disse: 
- Odette, a gente a gente não viu nada, não vamos falar nada e não perguntar nada. Isto é o melhor a fazer, pois o assunto é com eles e não tem nada a ver com nossa amizade.
Na mesma época, a Vera conheceu também o Enrico. Só que ela entendeu que o nome dele era Pascoal. E certo dia ficou chamando-o por este nome e, claro, ele não respondeu. Aí quando o encontrou, questionou porque ele não tinha conversado com ela no outro dia e ele tranquilamente, respondeu: Mas meu nome não é Pascoal, é Enrico.  
Eles começaram a jogar tênis juntos. Certo domingo, Vera mostrou aquele jovem  esbelto, magro, de cabelo curto e sorriso aberto para mamãe, que respondeu na hora:
- Mas, ele é muito criança, Vera!
Vera riu divertidamente, respondendo:
- Ah, mãe. Ele parece criança, mas não é. É até mais velho que eu! (um ano a mais, na verdade).
O Clube também reservou a boa surpresa para Odette ao encontrar o velho amigo Armando, que era sócio também e ali jogava bocha. E durante décadas, eles sempre se encontravam ali, para conversar durante horas nos bancos espalhados pelo Clube.
E assim se passaram os anos de namoro das meninas mais velhas – foram quatro a cinco anos de festas no Clube, lanches aos sábados – quando o primo Fernando ia contar detalhadamente os filmes que assistia – e jantares uma vez por semana com a presença do Enrico. Até que, no Natal de 1966, logo depois da prece, o Peter pediu para falar algumas palavras. Todos acharam que seria mais uma prece. Ele ficou sério e disse:
- Sr. Ignácio e dna. Odete, eu peço licença para ficar noivo da Toy.  
Todo mundo ficou emocionado e surpreso. Papai ficou mudo. Então, o Peter colocou a aliança na mão direita da Toy, que não pode fazer o mesmo, pois a aliança dele não tinha ficado pronta!
No dia seguinte, Odette ligou para os sobrinhos e a festa continuou, com a família reunida para celebrar o noivado. Na semana seguinte, foi o almoço para a família do Peter, com a presença de sua avó – conhecida como Oma Oma, que disse estar muito contente com a escolha do neto.
Então, no início de janeiro, começaram os preparativos para o primeiro casamento na minha família.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um novo estilo de vida?

O final dos anos 1950 e início dos anos 1960 não foram fáceis mesmo, mas a ajuda dos amigos não faltou em nenhum momento. Elias e Adma, amigos desde o início do casamento de Inácio e Odette, estiveram ao seu lado e por uma triste coincidência, pois no mesmo dia que houve o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e precisou cortar a perna no mesmo hospital. Odette lembra que eles iam para o escritório, saindo do hospital, e choravam ali com a amiga Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso – amizade cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da irmã mais velha Odila.
Em 1959, quando estava chegando o Natal, um casal americano  - um dos clientes do escritório Braspar de Contabilidade - nome dado por Inácio para seu negócio unindo as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), foi visitar Odette. Ele chegou um pouco sem graça, mas muito objetivo:
– Dna. Odete, a Elisabeth mandou pedir licença para dar um presente de Natal para as meninas e eu quero pedir autorização da senhora para mandar um presente para sua casa.
E Odette lembra:
- Imagina, naquele Natal, eles mandaram entregar uma cesta enorme tamanho 24 e presentes para as meninas! 
As cestas de Natal eram presentes especiais naquela época – feitas de vime e com tudo o que se podia imaginar para uma ótima ceia ali era colocado, conforme o tamanho) . 
Os dois anos seguintes foram de muito trabalho e mudanças na vida das meninas. Vera e Toy continuaram estudando. Vera foi para o Liceu Eduardo Prado. Toy foi para o Mackenzie, onde estudou secretariado. Rosely entrava na adolescência e também foi trabalhar na loja em frente da casa Um dos dias marcantes foi o meu aniversário de cinco anos, em 1961. As irmãs, amigas e primas arrumaram a casa e o motivo da festa foi a Casa dos Três Porquinhos. No bolo, Odette fez uma casinha montada com palitos de chocolate, a grama era verde e os porquinhos do presépio de Natal deram uma graça para o bolo. Nas paredes, colocaram grandes desenhos pintados. Na cozinha, olho de sogra, brigadeiro, muitos doces e balas, salgadinhos, tudo em um ambiente alegre de celebração.
Era o final de uma etapa. Meses depois, nos mudávamos para a rua João Lourenço, pois iriam derrubar as casas da Av. Santo Amaro para construir um prédio de apartamentos. 
A nova casa tinha um muro de pedras, portão de grande baixo, no fundo uma garagem enorme e dois pequenos quartos. A residência tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha onde havia uma mesa em que todos se encontravam no jantar para contar as novidades. 
Em um quarto com janela para o jardim ficavam eu e Rosely. Dormíamos em um beliche, eu na parte de cima. Toy e Vera ficavam no quarto que dava para o quintal dos fundos. Papai e mamãe no quarto do meio, que dava para um pequeno jardim de inverno. Na Vila Nova Conceição, foram feitas boas amizades – eu logo passei a ter uma turma na rua, com muitos amigos com quem brincava na rua ou na pracinha a poucas quadras dali, perto da rua Afonso Brás. 
Quando Inácio voltou para o escritório, Odette continuou a trabalhar. Vendia enxovais para noivas, que buscava na rua São Caetano e também costurava sob encomenda, com a amiga Jamile que morava pertinho. Os primeiros vizinhos naquela rua foram os Laub, que tinham filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. Lanches eram feitos em casa e os primos e tios continuavam a visitar sempre a família, especialmente nos finais de semana.

Então, um fato mudou a vida de todos nós, ao ficarmos sócios do Clube Pinheiros. Mas estas são outras histórias também gostosas para se lembrar! 

sábado, 6 de julho de 2013

Tempos difíceis

A casa da família Miessva, em alguns momentos, também recebia sobrinhos e sobrinhas adolescentes ou adultos, que precisavam de um abrigo em São Paulo para iniciar a vida estudantil ou profissional. Foi assim que Idaicy, uma das sobrinhas mais velhas – e prima querida das meninas da casa ­– chegou para morar na Av. Santo Amaro com seus 18 anos de idade. Tinha muita afinidade com a prima Toy, com quem dividia o quarto. Vera tinha seu próprio quarto – adaptado em um terraço deste quarto das duas. Ali ela lia até de madrugada e às vezes perdia a hora para ir ao colégio. Ou então, saía, e depois voltava mais cedo e dormia mais um pouco – o que levou papai a tirar a porta deste terraço. Mas ela não se perturbou. Colocou um armário no lugar e só eu, que era a caçula, além dela, entrava naquele espaço, que para mim era um pouco mágico.
Durante o tempo que ali morou, Idaicy aprendeu uma nova rotina de vida. Na casa, todo mundo tinha que ajudar. Cada dia era a vez de uma das meninas a lavar a louça do almoço e jantar. Nos primeiros dias, mamãe disse para as meninas:
- Hoje é dia da Idaicy lavar a louça!
Assustada, pois era algo que não fazia em casa, ela respondeu logo que não sabia e recebeu a resposta típica da tia:
- É muito fácil, aprenda! 
Além de aprender a lavar louça, ela aprendeu a arrumar a cama, a casa e a seguir os horários – brincadeiras, ouvir músicas, assistir televisão, preparar lanches, ir para a cama. Odette ensinava a cozinhar – no estilo dela –  fazia a comida e a pessoa ao lado tinha que ser esperta, pois precisava aprender e ajudar ao mesmo tempo.
Graças aos contatos de Ignacio, Idaicy conseguiu um emprego no Banco Moreira Sales. Às vezes ele dava um pouco de medo nos sobrinhos – era quieto, ouvia muito, falava o essencial. Mas quando ria, as barreiras ruíam e todos acabavam se encantando com seu jeito e também com o seu conhecimento, pois adorava ler e conversar a respeito – hábito que passou para as filhas e cada uma, ao seu jeito, passou a gostar de leitura. Toy, por exemplo, tinha um limite – não lia nada maior que o largura do dedo indicador (e tinha longos e finos dedos!).   
Naquela casa, Ignacio trabalhou por um período, até alugar uma sala em cima do cinema Radar – na própria avenida Santo Amaro. Com o crescimento dos negócios, alugou a segunda sala e já tinha quase 60 clientes. Contratou então dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette continuava ajudando no escritório, fazendo algumas atividades – como razão e diário dos clientes – de noite.  
Para atender aos crescentes pedidos dos clientes, ele passou a trabalhar muito – às vezes ia até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas pela manhã. Visitava os clientes e coordenava tudo. Isto fez com que mudasse sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo. 
Certo dia, no final dos anos 50 e início dos anos 60, chegou em casa com dor no braço e no lado esquerdo. Abraçou Odette e disse:
- Vou deitar um pouco, que não estou aguentando de dor.
Como ele não melhorou, Odette logo chamou o médico da família, dr. Almeida. Ele examinou e avisou:
- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!
O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido e telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que retornasse. As meninas voltaram da escola e ela explicou a situação:
- Não quero drama e vocês têm que me ajudar.
No hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se ele superasse este período, teria que fazer um tratamento prolongado.
Odette lembra aquela noite:
- Para mim, foi um choque. Ele passou mal de noite e depois da injeção, teve falta de ar. Mas de madrugada, dormiu e quando o dia amanheceu sua cor tinha voltado ao rosto. Ele perguntou das meninas, já querendo ir para casa:
- Eu fico só hoje, não é? Se eu ficar mais, Odette, você vai para o escritório.
E ela continua:
- Ao sair do hospital, precisou fazer repouso em casa e ficou três meses afastado do escritório. Eu me revezava entre o escritório e a casa. Tive amigos que nos ajudaram, como o Armando, amigo meu de juventude, vizinhos, parentes. Foi um dos períodos mais difíceis de minha vida. Ignácio era o esteio para mim, e, de repente, tive que assumir muitas frentes e ele não podia fazer nada pois naquela época, quem tinha infarto precisava ficar de repouso absoluto.

A partir daquele momento, muitas mudanças ocorreram na vida dos dois que, direta ou indiretamente, refletiram-se em todos. O que não mudou foi a determinação em preservar a união na família e deixar as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio.   

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma nova matriarca para novas gerações

O final de 1956 foi celebrado com a chegada das meninas Toy e Vera que voltaram definitivamente do colégio interno das freiras, da distante Garça, onde ainda moravam os avos João e Sebastiana. Logo depois, era a vez dos dois velhinhos também se mudarem para São Paulo, em uma casinha da Vila Nova Conceição preparada especialmente pelos filhos para recebê-los, para uma nova vida em São Paulo. As meninas da casa da Av. Santo Amaro visitavam os avos e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odete e cunhadas.
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. E eu, a pequena Lelena, aos seis meses, fiquei com meus padrinhos Helena e Mattos – ainda que se chamasse Francisco, ninguém o chamava assim. Eram amigos antigos e vizinhos de meus pais há alguns anos na Av. Santo Amaro. Netinho, seu filho, brincava com a minha irmã  ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhoras. E em seis de agosto de 1957, Odete estava com ela, como fazia às tardes. Deitada, magrinha como sempre foi em sua vida toda, virou-se para a filha e perguntou:
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha?
- Arranjo, mamãe.
Neste momento, Odete mostrou o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, já sei que é o fim, não é?
- Minha mãe, a senhora é que sabe. Seu organismo não está aguentando mais.
- Odete, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino para a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Vou cuidar deles.  
E Odete ficou ali, ao lado, depois de aplicar mais uma injeção. Algum tempo depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odete, eu já vou, já vou, já vou...
E ela assumiu o papel de nova matriarca da família, como lembra:
- Eu me sentia preparada para assumir todos, pois tinha Ignácio ao meu lado, que gostava de meus irmãos. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar em casa, ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de um abrigo. Foi assim com Namá e Lucila, quando ficaram desempregados por seis meses e precisaram morar em nossa casa. Foi assim com Rui e Tibi, quando moraram dez meses conosco. Ele nunca deixava faltar nada. E foi assim com meu pai, que ficou em casa por um tempo. Os dois se davam bem e riam muito juntos. De manhã, papai brincava com a netinha Lelena, e nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida na fazenda. 
As mães destes jovens se conheceram e se tornaram amigas. Letícia, que tinha um casa de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera em sua casa, com seus filhos Edna e Edson; Celina, que morava perto, tinha a Valéria, que era amiga da Toy, e Ione era mãe de Stela, que morava também ali perto.
Eu, que cheguei por último nesta família, fui criada tanto pela minha mãe quanto pelas minhas irmãs mais velhas, que me levavam para onde iam e me incluíam em tudo. Isto acontecia especialmente se o programa era assistir um filme na televisão, atração nova para a família, vizinhos e amigos. 
Ignácio chegava do trabalho e via todo mundo chorando e costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odete? Será que nesta televisão não tem algo mais alegre?
Depois do jantar, Odete costumava costurar e ia dormir mais tarde. E acordava mais tarde. O café da manhã era por conta de Ignacio e das meninas.  
Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado, Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam em casa: Edna, Edson, Stella, Valeria, para estudar com Toy e Vera.
Vera sempre foi muito brincalhona. Ela e Edna se divertiam e eram muito parecidas. Às vezes, acenavam para um táxi. E quando ele parava, uma perguntava:
- Está livre?
Quando o motorista respondia que sim, as duas respondiam juntas, rindo:
- Então, viva a liberdade!
Outra brincadeira preferida era passar trotes por telefone nas noites que ficavam estudando.
A vida naquela casa era mesmo agitada. Certo dia, um senhor bateu na porta e Odete foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
- E porque o senhor quer vender a perua? Está muito barato...
- É que o peru morreu e eu fiquei só com a perua.
E, para ajudar, ela comprou e colocou a perua no quintal. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas ou outras delícias que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odete, você comprou uma perua doente! Está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo.
- Ah, então faz isto, que eu vou sentar aqui para ver.
E ela fez exatamente assim e depois soltou a perua no quintal, pensando consigo mesmo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado e pensou que até parecia piado de perú e lembrou do bichinho que quase tinha morrido! Foi correndo no quintal e lá estava a perua, maravilhosa.  Mas a tal perua não ficou ali muito tempo, pois o Zuza a levou para o sítio e perguntou:
- Quantos frangos você quer pela perua?
Na próxima visita, Zuza trouxe três frangos, dos melhores que tinha. Depois comprou um peru e fez uma criação que chamava a atenção de todos. E de vez em quando, aparecia com um peru, que Odete preparava e todos iam lá naquela casa enorme, para jantar.   
Assim foi o início dos anos 1960 na minha família e pelos que a cercavam. Permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar. Mas logo isto mudou.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Impressões iniciais

Demorei para voltar a esta narrativa, pois para mim, esta história faz parte da minha própria história, e não e fácil relembrar acontecimentos que marcaram definitivamente a vida da família Miessva. Então, precisei de um tempo para mim. Estou de volta. Vamos ao mergulho no tempo...
A chegada na família foi precedida por avisos do plano espiritual. Ainda que a minha família tenha tido formação católica, na metade da década de 1940 ingressou no espiritismo. Naquela época, era mais comum as reuniões nas casa, chamadas de reuniões de mesa branca. Minha mãe era médium-alias, todos somos- e incorporava entidades. Meu pai, que teve sempre uma visão espiritualista da vida, organizava a reunião e anotava tudo. Eu mesma,  quando criança, varias vezes anotei o que se falava nestes encontros - mensagens que serviam como dicas na condução da vida. Então, foi recebida uma mensagem que uma das mulheres do grupo acolheria um novo integrante familiar. Todas em idade considerada avançada para conceber para aquela época, logo ficaram curiosas. Eu fui concebida no aniversario de casamento de meus pais, em 8 de dezembro de1955. E, quase nove meses depois, nascia mais uma mulher em uma família que sempre teve um certo ar feminista... 

sábado, 16 de março de 2013

A chegada de Helena


A família parecia completa. Três lindas meninas. Uma casa movimentada, sempre recebendo visitas de familiares que ainda moravam em Garça. Mas logo, logo isto iria mudar. Em dezembro de 1955, o Ano Novo foi celebrado na casa de Rui e Tibi, que já moravam em Perus, cidade perto de S. Paulo, onde Rui era o responsável pela fábrica de cimentos ali instalada. Era uma gostosa casa que tinha enorme quintal, horta com grande variedade de legumes e verduras, área coberta para festas e churrascos, um local para patos, coelhos e alguns cachorros. Na festa que tinha os deliciosos pratos que Tibi preparava com prazer – e um pouquinho de pimenta, como boa baiana – Odette comentou com a cunhada e dona da casa:
Tibi, eu estou grávida.
– Não está, não. Você está tomando muito vinho.
Então, Odete ligou para sua mãe, em Garça e comentou que estava grávida, ao que a mãe, na mesma hora respondeu:
- Ah, você bebeu demais, minha filha. Não é para beber tanto assim no reveillon!
E as duas riram.
Na semana seguinte, ela foi a médico, dr. Barbosa, que ao vê-la entrar no consultório, olhou firme e afirmou, rindo:
– Odette, você está grávida! E te digo, se for mais uma menina, é minha! Você tem três, e eu não tenho. Se for uma menina. Será minha e de minha mulher.
Como bom amigo, além de médico, alertou para o fato de ela estar com quase 40 anos e que aquele parto seria considerado de risco.  Ela seguiu as instruções direito, tomou vitaminas e engordou apenas o peso do futuro bebe.
Como as duas filhas mais velhas estudavam no colégio interno em Garça, Ignacio, Odette e Rosely aproveitaram a Páscoa para visitar seus pais. Como sua mãe não estava bem, a família tinha decidido que iriam se mudar para São Paulo – onde a maioria dos filhos já estavam. O bairro escolhido foi a Vila Nova Conceição, perto da casa de Ignacio e Odette. A mudança foi feita e a casa arrumada com tudo novo para recebê-los e ao filho Joãozinho, que ainda morava com eles. Tudo preparado para uma nova etapa de vida, em que receberiam atenção, carinho e cuidados daqueles de quem cuidaram todas as suas vidas.
O feriado de 7 de setembro se aproximava e Odette sentiu as dores na véspera. Como em outras vezes, sua cunhada Elza lhe acompanhou ao hospital e Ignacio ficou em casa com Rosely. As 20h15 de 6 de setembro, nasce a última menina da família – Maria Helena. Recebe o nome de Helena em homenagem à sua futura madrinha – Helena Jardim Mattos, amiga e vizinha. Como bebê, era a atração dos primos e primas que se divertiam em dar banho e arrumar aquela menina que nasceu quase sem cabelo. Tinha grandes olhos claros, como as irmãs. Era chamada em casa por Lelena e depois, desde sua infância, entre amigos, ficou conhecida como Lena. E sua chegada nesta história vai trazer algumas transformações. Aguardem... 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Casamento de faz de conta


Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1960, a casa da Av. Santo Amaro, 347 marcou a vida de muitas pessoas na família e de amigos. Era um tempo em que as carnes e os frios eram comprados na Casa Prata, os pães na padaria do sr. Gonçalves que era na esquina, secos e molhados no português. As pessoas andavam pela avenida – hoje totalmente irreconhecível – para passear e fazer compras nas poucas lojas que haviam. No inicio de 1957, surgiria um supermercado na Rua Joaquim Floriano – o Peg Pag.
Foi também um tempo de muitas mudanças. Tempo em que Vera foi morar alguns meses com seus avós em Garça, quando tinha seis anos. Anos depois, Antonia Maria – que ficou conhecida como Toy – iria para o colégio interno também em Garça, de freiras alemãs – o Ginásio Santo Antonio. No ano seguinte, seria a vez da Vera Cecília ir também. E as duas viveriam naquele internato histórias divertidas e outras nem tanto. Como quando Toy tomou cerveja de todas as colegas (foi servido um copo para cada menina experimentar mas como nenhuma gostou, a Toy foi bebendo os copos das amigas) e fez um discurso em seu aniversário no alto de uma mesa. Ou quando Vera colocou talco dentro da blusa e quando a freira chegou, ela bateu no peito e o talco voou para tudo quanto é lado! Tempo em que as cartas trocadas entre a mãe e as meninas eram lidas antes pela madre Sofia, superiora do colégio, que sempre acrescentava um comentário.
Na casa da Avenida Santo Amaro, foram abrigados sobrinhos, sobrinhas, cunhadas, cunhados, que ali viveram por meses, em períodos diferentes. Esta sempre foi uma premissas da família Miessva – se um parente ou um amigo necessitava de abrigo por um tempo, Ignacio ou Odette ofereciam um canto e todo mundo se ajeitava.
E o padre estava de penoir?
Em uma destas vezes, Rui e Tibi foram morar ali com o filho mais velho Tuta, e logo depois se mudaram para Perus, onde nasceria Ricardo – conhecido como Gracinha ou Graça. Também ali moraram Namá e Lucila, com o filho Max. E os encontros em família eram divertidos ou então com algumas brigas, pois Odette, ainda que fosse divertida, solidária e prestativa, também era brava e às vezes não era fácil conviver com ela... Mas sempre havia movimento, alegria e diversão. Como quando Namá, sempre brincalhão, vestiu um penoir   preto de Odete para ser o padre e montou um altar na garagem com alguns móveis e disse que iria fazer o casamento do Tuta e Rosely, primos que sempre brincavam juntos e que tinham cerca de seis anos. Tuta entrou e ficou esperando Rosely que entrou de noiva, com um buque pequeno de flores. Todos cantaram a marcha nupcial e o Namá, depois do sermão tradicional de um padre, sorriu e disse: “Então vocês estão casados, parabéns!” Em seguida, foi feito um lanche para todos. No final da tarde, depois de Namá e Lucila irem embora, foi a vez de Ruy, Tibi e Tuta se despedirem. E o Tuta, sério, virou para os pais e tios e disse que a Rosely também iria: “afinal, ela é minha mulher, eu casei com ela!” E começou a chorar, seguido pela Rosely. E ele continua enfatizando: “meu pai mora com minha mãe, tio Namá com tia Lucia, eu casei com a Rosely, tenho que levar ela para mim”. Os pais conversaram e acharam que seria melhor levar a Rosely para ficar uns dias em Perus, onde eles moravam. Mas, como eram pequenos, Rosely ficou chorando na casa dos tios e eles tiveram que devolver a noiva!

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O charme da ruivinha e da avenida Santo Amaro

Quatro anos se passaram e nos primeiros meses de 1948, Odette fica grávida novamente e ganha de Ignacio uma caixa com bombons americanos. Na tampa, a figura de uma menina de cabelo vermelho com  cachinhos e grandes olhos azuis. Ao olhar a caixa, ela comenta com Ignacio:– Imagina se isto existe! Isto é propaganda americana. Não pode existir uma menina deste jeito!E então colocou a caixa de bombons na cristaleira da sala e todo dia olhava para aquela menina. Em dezembro de 1948, dos dias depois do Natal,  vai para o hospital com a cunhada Elsa, enquanto Ignacio fica com Toy e Vera, como lembra:
“Elsa foi fazer companhia para mim. Cheguei no hospital e logo fui para a sala de parto. Quando a Rosely nasceu, o dr. Barbosa disse brincando: eu quero esta menina para mim. É a coisa mais linda deste mundo! E ela era igual à figura da menina daquela caixa de bombons americanos!
Olhos azuis e cachos tão crespinhos que era preciso usar pentes bem grossos para puxar e pentear. E, como toda criança, não deixava porque doía muito. Quando muito pequena, Odette precisava colar as fitas com cola no cabelo. Por onde passava, chamava a atenção. Certo dia, Rosely vestia um vestido de cambraia de linho azul e as duas estavam na rua Barão de Itapetininga, quando algumas pessoas pararam e pediram licença para colocar a mão no cabelo da menina para ver se era mesmo de verdade! Para sua mãe, aquela menina clarinha, com os grandes olhos azuis e cabelo vermelho cacheado foi muito vaidosa, desde pequenininha, mas também recorda que “tinha um gênio terrível. Quando ela não gostava da pessoa, não olhava. Eu tive uma empregada que ela não gostava e então, não olhava para ela. E a empregada ria do jeito da menina”.

Mas, com três meninas (Rosely com meses e as meninas com cinco e seis anos), ficou difícil continuar morando no apartamento do Largo do Arouche, ainda que tivessem pertinho tudo o que precisavam. As meninas brincavam na escolinha da Praça da República, o atendimento médico gratuito era feito no Caetano de Campos, com acompanhamento quinzenal. Eles podiam ir ao cinema e deixar as meninas com um dos irmãos que moravam perto e visitavam quase diariamente as sobrinhas: “O Joãozinho ficava com as crianças. Se eu comentasse que ia sair, o Zuza e a Elsa iam para lá. Todos tinham paixão pelas meninas”.
Ignacio tentou primeiro um apartamento maior no mesmo bairro. Naquela época, ele trabalhava na Casa dos Elásticos, na rua Líbero Badaró e fazia contabilidade da fazenda dos Barros, que moravam em Garça. E começou a perguntar aos amigos e ver os anúncios. Uma noite, voltou do trabalho e comentou ter achado uma casa na avenida Santo Amaro, número 342, que chamava a atenção pelo tamanho e se destacava naquela avenida com enormes árvores de flores roxas que durante a primavera, transformava as duas pistas em tapetes roxos. Tinha um pequeno comércio perto, ainda que fosse longe do centro. Depois de visitada pelos dois, Ignacio foi tratar do aluguel com o proprietário na rua Boa Vista. Conversando, comentou que a família da mulher, Aguirre, era de Garça. Então, o proprietário enfaticamente respondeu que não só conhecia como era parente distante dos Aguirre e imediatamente fechou o negócio, reduzindo o preço do aluguel: “Ignacio, a casa é sua!”. O fiador, Mariano de Carvalho Barros, comentou com o amigo Ignácio – “mas você nasceu virado para a Lua, esta casa é muito boa!”
A casa era enorme, isolada de todos os lados. Branca, de tijolo à vista, tinha na entrada uma varanda onde as crianças patinavam quando ela era encerada (uma das brincadeiras da época). Na frente, um jardim com roseiras e árvores. Nos fundos, um grande quintal com parreira de uva e até um galinheiro – fechado quando proibiram que as pessoas em São Paulo tivessem criações. Tinha ainda garagem, local preferido das meninas para brincar de casinha ou lojinha e que ficava ao lado do escritório de Ignacio, lugar considerado mágico para as meninas, com um canto embaixo das prateleiras com livros que nas brincadeiras se tornava esconderijo. Na mesa de trabalho, um abajur já com uma lâmpada fluorescente, e na gaveta, o fumo de corda e a tesoura grande para ele fazer seus cigarros de palha. Na parte de cima da casa, três quartos e uma sacada onde Rosely brincava na rede ou de escrever longas histórias em livros velhos de contabilidade. Depois, a varanda foi fechada com vidros.
Os primeiros vizinhos eram alemães e logo a falante Verinha fez amizade com eles, visitando-os sempre para tomar chá. Então, a casa ao lado ficou vaga e Helena e Francisco Mattos se mudaram para lá. Helena era sobrinha da cunhada de Odette e eles já se conheciam, se tornando amigos e compadres anos depois. Naquela casa da gostosa avenida Santo Amaro, onde moravam três belas meninas, começavam amizades que iriam durar para o resto de suas vidas. E estas amizades geraram histórias novas que logo, logo, serão contadas!