sábado, 28 de dezembro de 2013

De pai para filha caçula

Passado o casamento da Toy e do Peter, seguimos a vida na rua João Lourenço. Ali, aprendi a dançar dois para lá e dois para cá com meu pai aos dez anos – e aproveitei para repassar as dicas nas festinhas na casa de Silvinha, minha amiga e vizinha – ao som das músicas de Roberto Carlos, em plena Jovem Guarda! Em casa, os Beatles já eram ouvidos pela Rosely, e outras músicas sempre estavam na vitrola, servindo como inspiração para as grandes limpezas promovidas pela Odette, e testando a paciência de Ignacio, que gostava de ópera. E também de livros – afinal, quando tinha 16 anos, já havia lido mais de três mil livros no colégio internato polonês de Vila Conceiçãozinha – hoje bairro de Santa Felicidade, local de Curitiba para onde se dirigiram os imigrantes poloneses de 1850 em diante. 
Homem que sabia ouvir, gostava também de ver televisão – principalmente noticiários e seriados de ficção científica. Foi com ele que passei a gostar de Star Trek, Perdidos no Espaço, Histórias do Sobrenatural. Em vários sábados, me levava ao cinema – no Cine Vila Rica ou Cine Radar – pertinho de casa. Muitas vezes acabava dormindo durante as duas horas, mas sempre estava de bom humor nestes passeios.
Na casa da João Lourenço, minha mãe me ensinou a ler em voz alta e a dar valor à pontuação  - “há diferença entre ponto e vírgula e vírgula”, dizia enfaticamente! “Quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para o primeiro e menor para o segundo”.
Quando não estava na escola ou brincando com os amigos na rua, ia para o escritório de contabilidade de Ignacio, que ficava na Av. Santo Amaro, 427. Lá aprendi a gostar de mesas de escritório, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone, e da convivência com os papeis. Aprendi ali que cada documento tinha um lugar certo e que todos deveriam saber qual é este lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento.  Daquele ambiente, guardo a organização por pastas, arquivos, nomes de clientes nos escaninhos de madeira. E do precursor da fotocópia!  Quando precisava copiar o balanço mensal do cliente – que era datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, existia um método que hoje pode parecer da idade da pedra: pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava álcool nesta folha de gelatina, esperava secar segundos, colava na folha que devia ser copiada e passava álcool em cima. Depois colava a folha de gelatina no livro e fechava. Então, colocava-se o livro em um instrumento de ferro, em cima havia uma parte que girava e pressionava o livro. Aí ficavam algumas horas e – enfim – o balanço estava no livro.
Certo dia, depois do casamento da Toy, nos meus 11 anos, quando já exercia as atividades de office-girl no escritório, separando as notas fiscais para o registro do balanço, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas, meu pai me mandou ir registrar um livro na Secretaria da Fazenda, no centro da cidade, perto da Praça da Sé.
E lá fui eu, de ônibus, com o tal livro. Cheguei no prédio, dei uma volta, perguntei para uma pessoa, e nada de achar a tal seção. Na minha lógica, uma vez que não tinha achado a seção, era só voltar para o escritório e explicar a situação. E assim eu fiz. Ele, com a calma que muito caracterizou nossa convivência, disse:
-  “Não há problema nenhum, filha. Você vai voltar lá amanhã, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito”.
Naquele momento, recebia minha primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


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