segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Intervalo no livro para o presépio nosso de cada Natal


A primeira cena foi montada abaixo da árvore de Natal,  logo após o casamento de Odette e Ignacio, em 1942. Era uma pequena cabana de teto de cipó com os personagens principais da cena do nascimento de Jesus. Com orgulho, Odette aprendeu um costume polonês que existia tanto na casa de Ignácio no Paraná quanto na de seus avós, na Polônia. No Paraná, ainda hoje o presépio é montado embaixo da árvore de Natal, com musgo retirado perto das araucárias – ou de outras árvores pois as araucárias diminuíram drasticamente nestes dois últimos séculos.
Pouco a pouco, na casa dos Miessva, mais peças foram introduzidas no presépio e mais pessoas envolveram-se com a montagem. As peças eram compradas na Casa do Ceilão, no centro de São Paulo, que importava tudo o que se podia desejar para o Natal. Eram vendidas em separado – carneiros, porcos, porta de Belém, guardas, vendedores, pescadores, galinhas, peixes, patos, pontes...  
Na década de 1970, o presépio tinha quase 300 peças! Mas, assim como na realidade, uma tragédia abateu-se na cidade em miniatura de Belém – que ficava guardada durante o ano em uma caixa abaixo da escada. A enchente no bairro paulistano do Brooklin em 1975 inundou a casa da rua George Ohm e chegou até o terceiro degrau da escada. Ainda que rapidamente resgatado, a água já tinha atingido carneiros, cabras, pessoinhas... mais de 100 personagens foram perdidos. No ano seguinte, mais peças foram compradas, mas não tão perfeitas como as de antigamente, e renovaram o cenário. Algumas passaram a ser identificadas com pessoas da família como os dois pescadores – Anary e Chiquito – cunhado e irmão mais velho de Odette. Outros amigos, a cada ano, sempre trouxeram algo para o presépio, que  voltou a ocupar uma mesa da sala.  A nova casa de Jesus e Maria foi feita pelo genro Luiz Carlos, com capricho e até hoje é o ponto alto da cena.
Mesmo com a tecnologia digital entrando na vida das pessoas, a tradição ainda se mantém, como ensinada por Odette. Sua bisneta Luisa ajuda a tia-avó Lena a montar o presépio anualmente na casa de Vera Cecília. A neta Paola, que mora na Itália, traz todo ano personagens belos e inquebráveis. A outra neta Anna se diverte com os comentários em volta da arrumação. E, em 2012, a bisneta Catarina, com seus cinco anos e meio ajudou a colocar as peças, observada em alguns momentos pela irmã menor  Marina, que, com três anos e meio, começa a ser integrada na tradição. Tudo regado a um bom café e um pedaço de panetone! 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Presença feminina, sempre


Odette e Inacio ficam apenas alguns dias completamente sós. Logo chegam os pais de Odette para visitá-los, apreciando o apartamento e a vida do casal. O apartamento, ainda que fosse pequeno, abriga sempre os irmãos, irmãs e outros parentes. Carlito, um dos irmãos mais jovens, ali almoça todo dia.  
Aos poucos, Odette vai conhecendo as lojas, o Largo do Arouche e a Praça da República. São Paulo, naquela época, é semelhante às capitais europeias – homens de chapéu, mulheres com vestidos um pouco abaixo dos joelhos, cinturados.  No rádio, as notícias da II Guerra.
Então, na passagem para o ano de 1943, Odette fica enjoada com a comida da ceia. Em janeiro, vai ao dr. Barbosa  - médico amigo da família - que confirma a gravidez. Desnutrida, precisa tomar muitas vitaminas pois – como todas as noivas – tinha feito um rígido regime para casar. Depois de três meses, o enjoo passa e tudo fica melhor. No começo da gravidez, em algumas noites, tinha dificuldade em dormir. Certa noite, Inácio perguntou:
­– Odette, você não está dormindo. Por que? Está com vontade de comer alguma coisa?
- Amanhã, quando você sair, me compra uma empadinha.
Ele se levanta, troca de roupa e sai às três horas da manhã. No Largo do Arouche, há sempre alguns bares abertos durante toda a noite. Logo, volta com empadinhas e carinhosamente, as entrega:
– Agora, Odette, você pode comer a empadinha e dormir.
E foi o que ela fez, com muito prazer e rindo.
Para ajudar no nascimento, Sebastiana vem de Garça, com Odila, irmã mais velha de Odette. Quando as três estavam conversando, Odette vai ao banheiro e vem a primeira cólica. Calma, vira para o marido:
– Inácio, vamos para o hospital, que eu vou ter o neném.
Com as malas que já estavam prontas, pegam um taxi para o hospital Santa Cecília, ali perto. No ponto de táxi, tinham feito uma aposta – menino ou menina?  
Logo que chegou ao hospital, as contrações ficam mais fortes e o parto é tão rápido que não dá tempo de avisar o dr. Barbosa. Uma parteira alemã, toda perfumada e bonita, ajudou no nascimento da menina com cabelos negros, olhos claros e 3,5 quilos. Quando o dr. Barbosa chegou, um baixinho com forte sotaque caipira, já entrou no quarto perguntando:
Uai, porque não me chamou antes? É uma menina, como vai chamar?
– Vai se chamar Antonia, responde a jovem mãe.
– Mas este nome não é bonito. Uma menina tão bonita com nome de Antonia? Não gosto deste nome, respondeu enfaticamente o médico.
– O nome é por causa de uma promessa que eu fiz para Santo Antonio, para que se eu tivesse um marido paciente, o primeiro filho iria se chamar Antonio ou Antonia, responde mais enfaticamente a mãe.
Era 13 de setembro de 1943, e a menina é registrada com o nome de Antonia Maria Miessva, o que gera uma discussão no casal, pois ela recebe apenas o sobrenome paterno. Logo se torna a querida dos tios, em especial o tio Joãozinho, que adora os cachinhos pretos daquela menina sorridente. Odila fica mais alguns meses pois estava noiva e precisava de apoio para o seu casamento com Geraldo, que era dez anos mais moço que ela, o que não era comum naqueles anos. Em uma cerimônia simples, eles foram seus padrinhos de casamento.
Meses depois, a mãe de Inacio, Catarina, vem do Paraná para conhecer a neta e a nora. E é Odette que conta:
– Eu sabia que eram polacos, que falavam pouco mas foi estranho ouvir aquela lingua pois entre eles, só falavam polonês. Ela chegou com um lencinho preto na cabeça, acompanhada por um dos seus genros. Quando eu a conheci, pude entender melhor o Inácio. Ele tinha outra cultura, uma outra formação.
Além da família, a presença de muitos amigos e amigas sempre foi constante. Uma delas é Julia. Naquela época, ela trabalhava na Feira das Nações, uma loja de secos e molhados no Largo do Arouche. Ela e o marido foram os padrinhos de batismo de Antonia Maria, que se tornou conhecida como Toy.
Meses depois, um dia, Inácio olha para sua mulher e diz com segurança:
– Odette, você está grávida!
Eu ri e respondi: Inácio, deixa de brincar!
Na semana seguinte, fui ao dr. Barbosa que examinou e confirmou:
– Você está grávida outra vez e vai precisar de vitaminas para ficar forte.
Ainda bem que contavam também com Mimi, a empregada que ajudava em casa e com os bebês, ficando naquela família três anos.
Um ano e um mês se passaram e, em 30 de outubro de 1944, nasce a segunda filha – Vera Cecília de Aguirre Miessva , uma ruivinha de olhos azuis e que torna-se a companheira da irmã mais velha desde pequenina. Cada uma dormia ao lado de um dos pais. Quando choravam de noite, Odette ficava com Antonia Maria e Inácio cuidava de Vera Cecília. Estes laços das meninas com os pais se fortaleceram ao longo de todas as suas vidas.­  
Outros amigos desde o início do casamento eram o Elias e a Adma, e sua irmã Lenira. Elias, que era cliente do Inácio, e as amigas Adma, Lenira e Erlite ajudaram o casal a criar as meninas. Nesta época, havia racionamento de farinha, entre outros produtos, por causa da guerra e ninguém tinha pão, como conta Odette:
– Lenira comprava bolacha importada de trigo, eu passava na máquina de moer carne e virava farinha de novo e fazíamos pão para as meninas que adoravam a “tia Lelila”.


As duas meninas sempre juntas...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Santa Cecília em festa


Jogos de baralho às noites, bailes no clube Português – quando Odette e Inácio iam acompanhados pela irmã Odila – fizeram com que eles se conhecessem melhor por dois anos. Até o dia que Inácio pede a jovem de 26 anos em casamento a João de Aguirre Camargo. Na longa conversa que tiveram, ele garantiu para aquele homem que  tinha uma predileção por aquela filha impetuosa:
– “Eu vou fazê-la feliz porque sei lidar com ela. Tudo que ela gostar, eu farei”.
Casamento marcado, padrinhos escolhidos como o Carlito – o irmão menor dela  – e a irmã Odila. Inacio trabalhava na loja Casarini – cujos donos foram seus padrinhos e presentearam os noivos com um completo aparelho de jantar inglês – que se tornou conhecido de toda a família por muito tempo. Odette recorda como decidiram pelo apartamento onde foram morar logo após o casamento:
– “Inacio tinha visto vários apartamentos e me levou para saber minha opinião, antes de alugar. Era pequeno, mas com uma boa varanda. Aí ele perguntou se eu tinha gostado mesmo. E como não podia gostar? Na esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira, com um dormitório, boa vista, bons vizinhos. Era pequeno, mas tivemos tudo – tapete, cortinas, cadeiras altas numa sala de jantar linda!”
A igreja Santa Cecília foi a escolhida porque ela era devota da santa e tinha predileção por aquela igreja. Foi decorada com muitas flores, pagas pela noiva do casamento anterior, das sete horas. Na hora marcada do casamento – às oito horas, chovia a cântaros. Odette e seu pai chegaram no carro alugado. Arranjos de laranjeira nos cabelos negros delicadamente presos, deixando uma parte deles soltos, segurando o buque feito com as mesmas flores. Tudo perfeito, até que ela fica sabendo que o noivo estava atrasado!
A madrinha de Inacio tinha molhado sua roupa. Então, ela e o marido tinha ido para o apartamento dele, para tentar secar o vestido da madrinha com ferro quente.
Aflita no carro, e impulsiva – ela já queria desmarcar tudo! Seu pai pede paciência e finalmente o sentimento falou mais alto. Meia hora depois, seu irmão Carlito corre até o carro e avisa que ela já podia entrar.
Santa Cecília estava toda iluminada e parecia que os desenhos do teto brilhavam mais, especialmente quando todos se levantaram e ela entrou, sorrindo e olhando para o belo homem que estava no altar. Sua mãe não estava presente, pois tinha ficado doente em Garça, mas aprovava  – e muito – o casamento de Odette com aquele ‘estrangeiro’.
Anos depois, ela responde o que mais chamou a sua atenção para aquele homem calado, com olhar azul profundo. Sorrindo, lembra:
– “Primeiro, sua honestidade. Depois, ele, ainda que fosse muito calado,  procurava sempre estar perto de mim. Tudo que eu fazia, ficava observando e sorrindo. Tinha fascinação por mim. Aprendi muito com ele – desde a comer coisas diferentes, como frios com frutas, até a ouvir ópera. Ele também gostava de ler, como eu. Tivemos uma vida dificil no começo, pois sempre tinha alguém morando conosco – o Carlito, o Orlando – mas o Inacio sempre recebia a todos com alegria, considerando a minha família como a sua”.
Quando ela conheceu sua sogra, meses depois de casada, entendeu ainda mais aquele homem que tinha aceitado partilhar a vida.
Mas isto fica para o próxima capítulo – que logo, logo chegará!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O primeiro beijo


A chegada de Ignacio é comentada na cidade – ficando conhecido como  o estrangeiro, ao falar acentuadamente algumas palavras por influência do idioma polonês. A imagem de Odette parada na varanda da fazenda para ver 'o estrangeiro' ficou na sua lembrança e é ele que conta como tudo começou: “quando surgiu a oportunidade de vê-la mais vezes, eu, mais que depressa aqueci em tomar o meu chá das duas da tarde com a dona da casa, sra. Sebastiana. Era um chá diferente dos outros, que tomavam as cinco. Nós conversavamos às duas da tarde e eu via em Odette algo tenue e transparente, quase divino, mas ela permanecia distante. Continuou indo aos bailes, sempre acompanhada pelos irmãos, e não deixava de dançar com os outros”.
Certo dia, em Garça, Odette visitou o negócio de madeira de Ignacio: “Foi uma imen­sa alegria. Vi tanta felicidade em seus olhos que não dormi muitas noites, imaginando que tinha, talvez, chegado a grande oportunidade. Mas ainda não era a hora”. Pouco tempo depois, retomaram o terreno perto da serraria montada por Ignacio, o que contribuiu para a ruína do estabelecimento e eles não se viram por mais de um ano. Já em São Paulo, em maio de 1939, Ignacio perde seu pai e, sentindo-se só, vai procurar os amigos de Garça que residiam em São Paulo. Ao chegar na pensão, vê Odette cuidando de Sebastiana, pois a água fervente da caldeira tinha entornado e queimado a sua perna. Ali, ele descreveu para ela os últimos momentos de vida de seu pai e foi consolado: “Coragem, isto é a vida. Orarei pelo seu pai”. Dali em diante, o que já existia em seu coração ficou mais forte.
Mais um ano se passou e certo dia, Odette passou na loja onde ele trabalhava para dar a notícia do noivado da sua irmã Olga, como ele conta: “Como ela sempre dizia que queria ser freira, eu em vez de apresentar parabéns pelo evento, perguntei muito ingenuamente, quando ela iria para o convento. Foi a conta. Ela disfarçou muito bem, mas os outros viram. A minha aju­dante de conferente viu, analisou e assim que a Odette saiu pisando firme, me disse – esta moça gosta sinceramente de você, mas ela saiu muito zangada. O que houve? Eu contei, e ela disse: vamos  consertar isso e não há tempo a perder. Alguns dias depois, era o dia do meu aniversário, ocasião muito propícia para mandar uma mensagem. Então, mandei um bilhete com rosas vermelhas, simbolizando luta e rosas brancas, simbolizando paz. Isto abriu uma pequena fres­ta para mim no coração dela".
Poucos meses depois,  aconteceria o baile de primavera no clube que Ignacio era sócio e como outras três amigas suas insistiram em ir, ele as convidei. Mas no dia seguinte, foi visitar Odette e a convidou também: “Para minha surpresa, ela aceitou! No dia seguinte, avisei as amigas que iria acompanhada de uma amiga de longa data. Ao verem a alegria em meus olhos, elas foram muito compreensivas”.
Era 21 de setembro de 1940. Ignacio estreava um smoking novo e Odette estava com um vestido que acentuava seus cabelos negros bem penteados e o batom mais escuro. Na volta do baile, quando a deixou em sua casa, aconteceu o primeiro beijo dos dois, como ele conta: “eu fiquei muito feliz e surpreso. Seus lábios se uniram aos meus, de forma suave, como que selando um novo percurso de nossas vidas a ser percorrido” .

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A aventura em Garça e a arte do destino


A mudança de Cravinhos para Garça foi ampla, geral e irrestrita. Na época, muita gente estava indo para a região então conhecida como Alta Paulista. João foi ser administrador de uma propriedade. Seu desafio era transformar aquela mata virgem em uma fazenda de café. Primeiro ficaram em uma casa pequena enquanto aguardavam a casa maior ser construída. Para estudar, Odette e Olga atravessam quase três quilômetros de areião a pé para chegar na casa da professora dona Maria da Glória. Chiquito e Zuza já trabalhavam fora e Joãozinho ajudava o pai na fazenda. Para descobrir qual era o talento de Namá, seu pai colocou ele para aprender violino com dna. Glaucia, a primeira professora de Odette ainda em Cravinhos, onde morou com amigos da família. Em Garça, João cuidava da fazenda do coronel Carvalho de Barros, conhecida como fazenda União. Naquele tempo, para muitas crianças estudarem, tinham que morar com parentes em outras cidades. Foi o que aconteceu com Odette e Olga, que foram para a casa dos tios Zeca e Alzira, que tinham duas filhas com paralisia infantil. As quatro meninas iam todos os dias, de braços dados, para o instituto de fisioterapia dirigido por alemães, onde as primas faziam exercícios de ginástica. Naquela cidade, Odette um certo dia pintou uma paisagem com giz colorido na lousa negra e o professor ficou tão encantado que deixou ali por alguns dias.   
Na volta das meninas para Garça, mais mudanças na família Os mais velhos Chiquito, Zuza e Odila foram morar com o tio Nhonhô em São Paulo. Depois de um tempo, os pais alugaram uma casa na Bela Vista, transformando-a em pensão, dirigida por Sebastiana. Odette ficou na fazenda em Garça, e ia para São Paulo quando a mãe retornava para a fazenda, revezando ao cuidar da casa e do pai. Os passeios da adolescência eram os bailes no clube e as missas. Nesta época, um lazer favorito de Odette era a leitura. Francisco Sá, parente de seu pai, tinha uma biblioteca e emprestava livros. Ela ainda lia a revista “Eu sei tudo”, aprendendo a fazer palavras cruzadas. Costumava ir aos bailes com o irmão mais velho Joãozinho. Nesta época, Odette andava muito de cavalo e charrete. “Eu ia da fazenda até Garça de cavalo, descia na porta da padaria e não tinha quem não se admirasse do meu jeito... apenas para comprar pão!”, lembra Odette, que continua: “Sempre gostei de andar a cavalo. Papai deixava o cavalo sempre perto da porta. Ele entrava, eu saía e pegava o cavalo para passear.  
A fazenda grande do Coronel Carvalho de Barros foi então partilhada entre os filhos do Coronel e a União passou para uma de suas filhas, casada com Joaquim Salgueiro. Ela faleceu ainda moça, e o viúvo passou a tomar conta e estreitar os laços de amizade com João de Aguirre.
A última moradia dos Aguirre Camargo foi uma casa em Garça, construída por Salgueiro e doada no final de sua vida para João de Aguirre Camargo. Era um sobradão que ficava no final da Avenida Brasil. Perto da casa, estava a estação de trema da Alta Paulista. Quando alguém da família ia para São Paulo, levava uma marmita comfrango e pirão e molho para comer no caminho. Nesta casa, o Sr. Salgueiro tinha um quarto com entrada independente. Como era viúvo, jovem e bonito, costumava acelerar o coração das moças da casa, em especial de Odette.
Quando ainda estavam na fazenda e Odette tinha por volta de seus 18 anos, chega ali um rapaz alto, loiro, com sotaque parecendo estrangeiro, procurando emprego de guarda-livros. Vai falar com João de Aguirre Camargo que o emprega. Seu nome – Ignácio Miessva, que chegava do Paraná para tentar a vida naquela região.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A árvore de Natal pegou fogo!


A vida na fazenda em Cravinhos era boa demais em um tempo que passava devagarzinho... Os pequenos Olga, Odette, Namá e Carlito começavam o dia brincando no pomar, subindo nas árvores para chupar mangas e as laranjas colhidas pertinho. Brincar de pega pega, de futebol, de cabra cega – tudo era motivo para risadas como quando o Namá pegou os biscoitos de polvinho e colocou um em cada dedo e correu antes que a mãe – brava como sempre – percebesse! No final do dia, estavam lambuzados com as frutas e sujos de barro. Eram a empregada preparava os banhos e ficavam todos limpos. Depois disto, nem pensar em chegar perto do pomar. O permitido era no gramado do jardim, em frente da casa. Na hora do jantar, estavam todos na mesa, sentados por ordem de idade. Na cabeceira da mesa, ficava João e do seu lado esquerdo sua mulher Sebastiana. Ela fazia o prato de cada um e não admitia brincadeiras. Crianças comiam em silêncio, apenas os mais velhos conversavam.  Certa vez, os adultos tiveram a ideia de enfeitar a árvore de Natal com algodão para lembrar a neve. Tudo ia bem, até alguém se lembrar de colocar velinhas acesas na árvore, presas com pregadores de roupa. De repente, a árvore pegou fogo e foi um corre corre geral. Bem mais tarde, a figura do Papai Noel surgiu na família, sempre assumido pelo Joãozinho, um dos filhos mais velhos que se divertia com a fantasia e corria atrás da criançada, formada pelos sobrinhos e sobrinhas que sempre adoraram a casa dos avós João e Sebastiana.  Mas isto é outra história que será contada mais para frente!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

De professor a guarda-livros


A formatura de Ignacio foi celebrada em alto estilo. Depois da noite do baile, ele saía às noites para passear com seus dois amigos mais próximos – um deles já tinha automóvel – ­­pelas ruas de Curitiba. Para se manter, foi dar aulas de polonês, graças ao bom relacionamento que tinha com os padres do Colégio onde estudou e domínio não só do polonês como de outras línguas eslavas.  Também dava aulas de matemática e à noite concluiu um curso de ciências contábeis. Se aventurou em abrir um hotel, mas não deu certo e perdeu tudo. Durante dois a três anos, viveu em Curitiba, mas veio uma vontade de conhecer mais, de ir além das paredes do colégio ou das festas.  Então, com ajuda dos pais – que já tinham formado um pequeno pecúlio para o caçula – ele foi para a cidade de São Paulo.  Depois de conhecer a capital, resolveu seguir para o interior, chegando em Garça na metade da década de 1930.
Enquanto isto, na região de Cravinhos, Odette crescia e se divertia com os irmãos. A casa grande tinha um belo jardim na entrada e a entrada de carro muito alta para as charretes, com uma cobertura. Assim, as pessoas desciam na porta da casa, perto das escadas que davam para o alpendre. A sala de estar era grande e ao seu lado havia a sala de jantar, no lado direito ficava o escritório de João de Aguirre – sempre fechado para as crianças.Depois vinham os quartos – em cada quarto ficavam dois filhos. O banheiro tinha água quente, que também aquecia os quartos como ela conta: “o papai colocou serpentina no fogão a lenha. A serpentina passava no fogão e seguia para os quartos. Os banhos eram tomados na banheira com duas torneiras – a água fria vindo da caixa e a água quente vindo do cano que começava na serpentina do fogão a lenha”. Na época, as compras de roupas eram feitas por catálogo. Sebastiana escolhia, enviava a carta e as encomendas com roupas de cama, mesa, banho e das crianças chegavam depois pelo correio”. A chegada do Ford importado foi marcante nos seus nove anos: “papai mandou fazer uma garagem especial, fechada com cortinas de pano”. Ele girava a maçaneta na frente do carro para ele pegar e Namá, Odette, Olga, Rui, Carlito e Orlandinho – os pequenos – subiam para passear com os pais no meio dos cafezais. Quando chovia, tinha que colocar correntes nas rodas para enfrentar os lamaçais que se transformavam as pequenas estradas. Mas a grande aventura mesmo era ir para a escola, em Cravinhos, com a irmã Olga...



segunda-feira, 23 de julho de 2012

De Amparo para Cravinhos, a família cresce e se estabelece

Seguia a vida de Sebastiana e João de Aguirre Camargo. Casados e com o primeiro filho nascido – Francisco – logo conhecido como Chiquito ­­– moravam em Amparo, no interior paulista. Ali, João administrava uma fazenda de café. Nasceram na mesma casa os outros dois filhos – José, mais conhecido como Zuza e Odila, a primeira ruivinha da família. Todos de olhos claros, usufruíam de conforto na grande casa, com empregados e criadas para cuidar dos pequenos. Então, João recebeu uma proposta para administrar uma fazenda na região de Cravinhos. A mudança foi aceita logo, pois a ideia de ficar mais perto de Ribeirão Preto e dos parentes agradou os dois. E lá se foram de trem para uma das regiões que estava gerando riqueza tanto para brasileiros quanto  para estrangeiros, em sua maioria ingleses, que vinham para cá investir neste grão verde que, em boas colheitas, transformava tudo em riqueza. Ali, na fazenda Tibiriçá, nasceram os demais filhos – João, Maximiniano, Maria Odete – que faleceu com meses ­– Odette, Olga, Rui, Carlos e Orlando.
Família grande, a mesa era sempre para 12 – quando não recebiam parentes ou amigos. Como em toda família, alguns eram mais tímidos, outros extrovertidos. Mas havia uma que marcou a vida tanto dos irmãos e irmãs, quanto dos sobrinhos, primos e muitos amigos. Menina falante (como as irmãs), Odette era uma autêntica leonina – ou seja, onde ela estava, criava alegria e, às vezes, confusão!  E é esta menina, depois mulher que contará muitas histórias neste livro como quando o automóvel comprado pelo pai chegou na fazenda.... Mas isto é outro capítulo! Na foto, Odette com oito meses e Namá (apelido do Maximiliano) com dois anos na casa de sua avó Luiza, em Ribeirão Preto.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

A vida dos Mierzwa no Paraná


A chegada ao Brasil trouxe para José e Catarina mais saudades da distante Polônia, mas eles estavam animados com a vida nova. Afinal, como tantos outros poloneses que aportavam no País na mesma época, puderam ter seu pedaço de terra, comprado em prestações dentro do programa do governo brasileiro para estimular a imigração europeia. O destino final da viagem foi nos arredores de Curitiba, onde hoje é o conhecido bairro de Santa Felicidade. Para ali, no final dos anos 1800 e início dos 1900, se dirigiam os imigrantes de vários países. Muitas araucárias, poucas ruas de terra onde se ouvia alemão, polonês, italiano. Para os que moravam em Curitiba, aquele lugar ficou conhecido como colônia. Ali foi erguida a igreja que lembrava a terra distante, com entalhes em madeira. Fazer a certidão de nascimento dos filhos era tarefa nem sempre fácil, o que acabava gerando confusão nas datas. José e Catarina seguiram suas vidas, plantando, colhendo e vendendo os legumes, principalmente batatas – ingrediente preferido dos pratos poloneses.
- A melhor batata não é a maior. Escolha sempre as batatas médias para ter um bom prato, ensinava Catarina para suas filhas Gertrude, Marta e Veronica. Com José, os filhos Valentim, João, Francisco, Alexandre e Pedro aprendiam a lida do campo. O caçula Ignacio bem que tentou entender como era este trabalho na terra, mas não o atraía de jeito algum. Gostava de saber mais, de ler. Então, seus pais tomaram a decisão que mudaria no futuro a vida de várias pessoas. Ignácio foi estudar com os padres poloneses na colônia e depois aos 12 anos, em Curitiba, no Colégio Henrique Sienkiewicz, onde era pensionista da instituição mantida pela Missão de São Vicente de Paula.  Ali, ele chegou a ler todos os livros da biblioteca, em polonês ou português  – mais de três mil! – e mantinha conversas com os professores e com os padres, sempre ouvindo com atenção
, calado.  Assim se passaram os anos da juventude daquele tímido rapaz de olhos claros.  



Na foto, Ignacio é o terceiro, da esquerda para a direita, na segunda fila. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

No interior de São Paulo...
João de Aguirre Camargo sabia como tirar da terra o melhor café e como administrar fazendas. Afinal, tinha nascido e crescido em uma bela fazenda de café em Rio Claro, interior de São Paulo, onde seu pai perdeu muitos bens com a abolição da escravidão. Afinal, os novos tempos daquele Brasil exigiam outras atitudes dos que ocupavam a elite – nas cidades e no interior. Seus irmãos conseguiram estudar, mas em sua vez, a família conheceu outra realidade. O que valia mesmo era o conhecimento e isto ele tinha de sobra – sabia quando a florada iria dar uma boa safra, sofria quando a geada queimava o que poderia virar dinheiro. Não era muito alto, mas era garboso e seus olhos azuis chamavam a atenção das moças nos bailes que frequentava quando ia a Ribeirão Preto. Certa noite, viu uma moça diferente entrar no salão – com seus olhos verdes e uma postura altiva, elegante com seu chapéu e luvas e que não olhava diretamente ninguém. Estava acompanhada de outras moças, e – pelo que logo procurou investigar com os amigos ­– Sebastiana Borges era seu nome e vinha com os Cunha Bueno. Vencendo a sua timidez, foi até ela e pediu uma dança. Com um sorriso e balançar de cabeça, concordou com o pedido. Rodaram pelo salão, mas João não teve chance de falar nada. Como não era pessoa de desistir, assim que a dança terminou, solicitou outra. E ela, que mal havia chegado ao baile, concordou novamente com um sorriso. Sem perder tempo, João tratou de saber mais sobre aquela moça tão alinhada e com ares de pessoa decidida. Tinha sido criada pelos avós João e Luiza, pois sua mãe faleceu quando ela nasceu. Chamava-os de pais e deles recebeu educação com uma visão europeia, especialmente de seu avô alemão. Gostava mais da cidade que de fazenda, e sabia fazer de tudo um pouco – e bem feito. Quando podia, aproveitava para ler e aprender novas receitas de doces e bolos.
Da dança daquela noite, ele passou a frequentar a casa de Sebastiana, em visitas regulares e pediu a sua mão em casamento. Cerimônia simples, em Ribeirão Preto, logo mudaram-se para uma fazenda em Cravinhos, morando em uma bela casa, com pomar e varandas. Ali, eles tinham criados e João seguia como administrador da fazenda de café. Antes do primeiro ano de casamento, nascia Francisco, o primeiro de seus 11 filhos e muitas histórias surgiriam naquela família.

E breve....No sul, a chegada em novas terras

quarta-feira, 6 de junho de 2012


Em busca do amor conta a história de várias histórias de minha família. Há muito tempo que eu ensaio escrever um livro inspirado na vida de meus avós e pais, como legado para meus sobrinhos e sobrinhas-netas que não puderam conhecê-los. Claro que a visão é minha, que não convivi com os avós, convivi com meu pai por 18 anos e tive o privilégio de conviver com minha mãe até os seus quase 92 anos, quando ela faleceu.
Tudo começou em 2001 quando resolvi fazer algumas entrevistas com minha mãe para saber sobre sua vida, com alegrias e dores. Com este material e um texto que meu pai escreveu para ela e suas quatro filhas, entregue em 1967, quando completaram bodas de prata -  25 anos de casamento. Então, aqui serão contadas pequenas histórias, colocadas algumas fotos e acredito que também servirá para que primos, primas, amigos, possam contribuir. Enfim, será uma obra escrita por muitos, como é a vida nossa de cada dia. 
Então, era uma vez...
Outubro de 2007. Eu aguardava ansiosa uma ligação de Paola, minha bela sobrinha. Uma mulher de 34 anos, ruiva de olhos azuis. Annamaria, sua irmã, deveria ter a segunda filha a qualquer momento e eu iria também para a maternidade. Anna, Lauro – marido de Anna – e Luisa, minha sobrinha-neta de sete anos, moram perto da maternidade. A qualquer momento, Catarina poderia nascer.
Vera, minha irmã, e seu marido, Enrico, estavam na Itália, em viagem de férias.
Ao ouvir a voz da Paola, tive um misto de alegria e aflição – nascimento para mulheres em nossa família é sempre um pouco complicado – e avisei Antonio, meu marido na época. Fui para a maternidade, pensando em como o tempo voa em nossas vidas. Anna, minha afilhada, seria mãe pela segunda vez.
À noite, chega Catarina, pequena e bela. Mais uma mulher para a minha história familiar. Uma história que percorre tantas histórias de casais e em especial de um  – Ignácio e Odete – meus pais. Antes deles, a história de meus avós, que começou há muito tempo. E como toda história que se preza....

Era uma vez... na Polonia no inicio dos anos 1900

José já havia embrulhado tudo o que iria levar e não era muito. A bíblia, a última edição do semanário de Ponz – cidade próximo de onde moravam, o terço de sua mãe. Pronto. Agora era buscar Catarina, sua mulher há poucas horas e que se despedia dos pais Pedro e Catarina Pajeiak. Seus olhos azuis percorreram mais uma vez o quarto onde viveu a juventude ao lado do irmão que já havia partido no mês anterior. A cama de ferro arrumada com o cobertor dobrado – costume aprendido ainda menino com seus pais Casemiro e Anna Mierzwa – a lamparina apagada ao lado da cama. Fechou a porta, virou a chave e com passos decididos foi até a casa maior de madeira ao lado. Subiu as escadas, entrou no alpendre. De dentro, vinha o aroma das batatas cozidas. De pé, sua velha tia chorava sem parar, com o lenço negro na cabeça, avental amarrado na cintura. José abraçou-a mais uma vez, sabendo que seria a última, entregou a chave e agradeceu, secando as lágrimas com o lenço branco que sempre trazia no bolso. Encostado em um dos pilares de madeira trabalhada, estava seu tio, com o rosto sério. Então, em um gesto carinhoso e ao mesmo tempo decidido, afastou com cuidado a mulher do sobrinho, e deu um forte abraço:
-          Vai, José. Esta é a melhor decisão que você e Francisco tomaram. Nossa Polônia não tem nada a oferecer para vocês agora. Comece uma vida nova, uma família e mande notícias, se puder. Não nos esqueça, filho. Não esqueça nunca desta terra que sempre será sua mesmo sem ser reconhecida como Pátria. Que Deus os acompanhe!
Ele olhou demoradamente para os tios e a casa que lhe abrigou. Queria guardar cada detalhe daquela cena, os rostos de sua família na memória. Deixar seu país era mais que deixar aquela casa onde morou depois que seus pais morreram. Primeiro o pai, depois a mãe. Foi ali onde viveu seus melhores momentos com seu irmão, que, sabia, nunca mais iria encontrar, pois Francisco tinha tomado o rumo dos Estados Unidos, país estranho, mas com portas abertas aos imigrantes. Naquele lugar, ele falava sua língua. Mas tinha que seguir em frente e não estava mais só.
Fechou o portão de madeira e foi caminhando com sua pequena mala para a casa dos Pajeiak, também nos arredores de Ponz. Lembrava do dia que viu Catarina pela primeira vez, quando retornava do trabalho no campo. Seus belos olhos azuis cruzaram com os dela. Então, onde pudesse encontrar aquela menina, lá estava José, nas festas da igreja, nas ruas da cidade. Dos olhares, passaram às conversas, sempre acompanhadas pela mãe de Catarina, que observava atenta, como era costume. Em uma noite, José vestiu sua melhor roupa. Foi à casa dos Pajeiak e pediu Catarina em casamento. O casamento foi simples, ela com seus 16 e ele com 26 anos, na igreja da cidade pouco antes da viagem de trem ao porto para o navio que os levaria para tão longe.
Tão pouco tinha ele a oferecer, mas tanto amor para dar para aquela mulher decidida a enfrentar o futuro ao seu lado. Desde que a conheceu, ficou impressionado com a sua forma de pensar. José sempre acreditou que o amor à Pátria deveria vir em primeiro lugar. Catarina era uma mulher prática que acreditava mais na capacidade das pessoas comuns do que na dos que governavam o país – que naquela época tinha perdido sua condição de Estado.
Antes de saírem, Pedro Pajeiak chama José e lhe entrega um pacote:
-          José, você é o homem que Catarina escolheu para ser pai de meus netos. Não quero que nada falte a eles nem a ela, neste novo mundo que vão enfrentar. Não sabemos como será nosso futuro, mas tenho estas poucas economias. Aceite para seu início de vida, pelo menos com menos dificuldades.
-          Obrigado, senhor Pajeiak. Nunca faltará nada a Catarina nem aos meus filhos. Sou trabalhador e isto o senhor pode ter certeza. Saio de meu País para que minha família tenha um nome a honrar e uma terra para plantar e que possa ter orgulho de ser polonesa e não ter que esconder sua origem.
E assim José e Catarina Mierzwa iniciaram sua longa viagem ao Brasil.

Enquanto isto, no Brasil, muitos anos antes...