quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O primeiro beijo


A chegada de Ignacio é comentada na cidade – ficando conhecido como  o estrangeiro, ao falar acentuadamente algumas palavras por influência do idioma polonês. A imagem de Odette parada na varanda da fazenda para ver 'o estrangeiro' ficou na sua lembrança e é ele que conta como tudo começou: “quando surgiu a oportunidade de vê-la mais vezes, eu, mais que depressa aqueci em tomar o meu chá das duas da tarde com a dona da casa, sra. Sebastiana. Era um chá diferente dos outros, que tomavam as cinco. Nós conversavamos às duas da tarde e eu via em Odette algo tenue e transparente, quase divino, mas ela permanecia distante. Continuou indo aos bailes, sempre acompanhada pelos irmãos, e não deixava de dançar com os outros”.
Certo dia, em Garça, Odette visitou o negócio de madeira de Ignacio: “Foi uma imen­sa alegria. Vi tanta felicidade em seus olhos que não dormi muitas noites, imaginando que tinha, talvez, chegado a grande oportunidade. Mas ainda não era a hora”. Pouco tempo depois, retomaram o terreno perto da serraria montada por Ignacio, o que contribuiu para a ruína do estabelecimento e eles não se viram por mais de um ano. Já em São Paulo, em maio de 1939, Ignacio perde seu pai e, sentindo-se só, vai procurar os amigos de Garça que residiam em São Paulo. Ao chegar na pensão, vê Odette cuidando de Sebastiana, pois a água fervente da caldeira tinha entornado e queimado a sua perna. Ali, ele descreveu para ela os últimos momentos de vida de seu pai e foi consolado: “Coragem, isto é a vida. Orarei pelo seu pai”. Dali em diante, o que já existia em seu coração ficou mais forte.
Mais um ano se passou e certo dia, Odette passou na loja onde ele trabalhava para dar a notícia do noivado da sua irmã Olga, como ele conta: “Como ela sempre dizia que queria ser freira, eu em vez de apresentar parabéns pelo evento, perguntei muito ingenuamente, quando ela iria para o convento. Foi a conta. Ela disfarçou muito bem, mas os outros viram. A minha aju­dante de conferente viu, analisou e assim que a Odette saiu pisando firme, me disse – esta moça gosta sinceramente de você, mas ela saiu muito zangada. O que houve? Eu contei, e ela disse: vamos  consertar isso e não há tempo a perder. Alguns dias depois, era o dia do meu aniversário, ocasião muito propícia para mandar uma mensagem. Então, mandei um bilhete com rosas vermelhas, simbolizando luta e rosas brancas, simbolizando paz. Isto abriu uma pequena fres­ta para mim no coração dela".
Poucos meses depois,  aconteceria o baile de primavera no clube que Ignacio era sócio e como outras três amigas suas insistiram em ir, ele as convidei. Mas no dia seguinte, foi visitar Odette e a convidou também: “Para minha surpresa, ela aceitou! No dia seguinte, avisei as amigas que iria acompanhada de uma amiga de longa data. Ao verem a alegria em meus olhos, elas foram muito compreensivas”.
Era 21 de setembro de 1940. Ignacio estreava um smoking novo e Odette estava com um vestido que acentuava seus cabelos negros bem penteados e o batom mais escuro. Na volta do baile, quando a deixou em sua casa, aconteceu o primeiro beijo dos dois, como ele conta: “eu fiquei muito feliz e surpreso. Seus lábios se uniram aos meus, de forma suave, como que selando um novo percurso de nossas vidas a ser percorrido” .