quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Casa do Brooklin recebe novas gerações

No início, quando ali chegamos, na década de 1970, a rua não era nem asfaltada. A escuridão à noite imperava, pois não existia a Av. Luiz Carlos Berrine – a rua Texas terminava em uma avenida que terminava em nada e ao fundo se via a Marginal Pinheiros.
A casa que nos abrigou por alguns anos e foi palco de minha adolescência e da infância de Christian, Annamaria e Paola, e também os gêmeos Octávio e Beatriz ainda bem pequenos, foi alugada quando mamãe e eu retornamos para a Vila Nova Conceição e depois quando fomos para o Rio de Janeiro. No início dos anos 1990, com governo Collor, inflação descontrolada, planos econômicos mirabolantes sem resultados efetivos, decidi voltar para São Paulo e mamãe resolveu ficar no Rio de Janeiro. Para viabilizar isto, era preciso retomar a casa dos então inquilinos, e achar um emprego na capital paulista. Foi um tempo em que a sobrinha Annamaria mandava toda segunda-feira o caderno de classificados do Estadão para mim pelo correio, que chegava no meio da semana, quando eu procurava e respondia os anúncios. Ao mesmo tempo, Christian decidiu sair da casa dos pais. Então, por que não morar juntos mais uma vez e na George Ohm? Ele se muda para lá seis meses antes de eu conseguir o emprego na Cargill. A mudança foi feita em dois carros, com a ajuda de Christian, Paola e de alguns amigos dele – roupas, livros, discos e quase nada mais, parodiando uma velha canção. Na chegada, a prima Idaicy me deu uma cama, Ana Maria (Muqui) nos deu uma estante e mural de couro para a sala. Comprei televisão e um aparelho de vídeo (lembrando que CD não tinha nascido...), geladeira, fogão e aos poucos fomos arrumando a casa. Eric, primo do Chris, morou alguns meses conosco. Eduardo, amigo do Chris, outros poucos meses. Ao desmontar o apartamento do Eric, Cristina – tia do Chris – nos deu muita coisa e precisamos várias viagens de carro do Morumbi para o Brooklin, feitas com entusiasmo em ver a casa tomando forma de lar.
Então, decidimos reformar a casa – tarefa que ficou sob a responsabilidade da Vera Cecília, que ali também montou o seu atelier e onde pintou por um tempo. Christian teve o quarto que sempre sonhou – feito para o seu tamanho – com uma cama alta, em que ele podia sentar e balançar os pés!
Ali ficamos alguns anos, com a companhia do nosso cachorro Nero – até o Christian se casar e eu também. Ele ainda fez mais uma mudança antes do casamento, indo morar alguns meses com a mamãe, que já tinha voltado do Rio de Janeiro e estava também no Brooklin. A casa ficou para ser alugada por um tempo, sem sucesso. Então, mamãe decidiu voltar a morar novamente ali, onde convivia com antigos vizinhos e amigos.

Os anos passaram e a casa mais uma vez teria uma mudança, para receber Annamaria, Lauro e aquela que seria a primeira da nova geração da família – Luisa. Foi ali que ela chegou da maternidade São Luiz, no dia 7 de fevereiro de 2001. Foi ali que deu seus primeiros passos, teve sua festa de primeiro ano e onde recebia sempre o carinho nas visitas de todos, em especial da sua tia Paola, que também morava no Brooklin. Neste período, mamãe voltou a ficar perto de mim, morando no Morumbi, em um apartamento alugado a duas quadras de onde eu estava. 
Rua George Ohm, 290. Mais que uma casa. O lar da nossa família. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Descasamentos e mudanças

A década de 1980 começou movimentando a nossa vida. Depois de muitas brigas, conversas e tristeza de ambos os lados, Vera e Enrico separaram-se e a casa construída na Granja Viana foi vendida. Na mesma época, logo após um Natal, mamãe não passou bem e fomos ao pronto socorro do Hospital São Luiz pois eu e ela estávamos passando a tarde com tio Rui e tia Tibi, no apartamento da Av. Santo  Amaro. O parecer do médico é que ela deveria se poupar e evitar morar em casa com escada. Então, nos mudamos para um apartamento na rua Eduardo Souza Aranha, na Vila Nova Conceição, bairro com tantas memórias afetivas para todos nós. Ela estranhou um pouco, pois no Brooklin conhecia todo mundo e morar em prédio era outra realidade. Mas, passado um tempo, quem vem morar perto da gente??? Vera, Anna e Paola, no Itaim Bibi, em um apartamento que eu e Vera achamos andando de moto (eu já tinha minha motocicleta – o veículo da casa!). Então, todas as manhãs, mamãe acordava cedinho para ficar na janela e acenar para Anna e Paola que tomavam o ônibus para a escola na Av. JK. E depois voltava a dormir! E nos domingos, Vera vinha com as meninas comer pizza ou a gente ia até o apartamento dela. Vera voltou a trabalhar na área de decoração e continuamos também a conviver com o Enrico – que independente de estar ou não separado, sempre fez parte da família.
Em 1984, Christian foi morar com Ernie e Hela nos Estados Unidos e nos reunimos para a despedida. Eu estava muito triste e Chris achou que era pela sua partida, ao que a Anna explicou:
- Não se preocupe, ela está chorosa porque terminou um namoro!
No final de 1984, depois de quatro anos e meio trabalhando no Grupo Pão de Açúcar, resolvo procurar outro emprego e respondo a um anúncio publicado na Folha de S. Paulo. Me lembro que pensei: tenho menos de 30 anos (o que pediam), tenho mais de três anos de experiência (idem!), tenho disponibilidade para viajar (idem!!!), tenho disponibilidade para mudar de cidade (idem!!!). Então, por que não mandar o CV e ainda enviar alguns exemplares do jornal interno que escrevo? Depois de um processo seletivo com mais de 70 pessoas, fui a escolhida e assim a próxima mudança seria mais radical: iria morar no Rio de Janeiro. Ainda que soubesse ser este um grande sonho de mamãe, perguntei se ela queria ir ou ficar em São Paulo. E a resposta veio unindo o emocional com o racional:
- Lena, você vai ter viajar bastante, não conhece ninguém lá e vai precisar de uma retaguarda para se dedicar à profissão e ficar tranquila. 
E aí completou, tendo uma intuição:
 - Procure um apartamento que tenha palmeiras e jardim.
Eu ri e respondi:
- E onde eu vou achar o apartamento que você está vendo??
Mas lá fui eu no dia 2 de janeiro de 1985. Como tudo na vida é orquestrado, Enrico nesta época já morava lá, trabalhando como diretor geral da Mido Relógios. No primeiro sábado, fui à procura de um apartamento para alugar e não é que achei mesmo o tal lugar? Uma cobertura no Leme, pequena, mas com um jardim grande, palmeiras, plantas. 15 dias depois, a mudança chegou, organizada pela Vera e mamãe em São Paulo, que viajaram de trem para o Rio de Janeiro. E assim teve início um bom período em nossas vidas, bem divertido, em meio a trabalho primeiro na Souza Cruz e depois na Bayer, com os passeios que fazíamos, com os namorados que eu tinha, com as ‘aventuras’ da Odette no Rio de Janeiro, cidade que tinha tudo a ver com ela! Teve um dia que contei no relógio – da praia do Leme até a porta do prédio, demoramos 45 minutos! Isto para percorrer quatro quarteirões. Mas andar com ela no bairro era assim mesmo, parava para conversar com todo mundo, conhecia todos os comerciantes da rua, fazia amizades na agência bancária. Ficou até amiga do dono do apartamento que ia visitar a gente de vez em quando.
Ali, passamos finais de ano na praia sozinhas ou com sobrinhos, netos, amigos e amigas vindos de São Paulo, com as crianças de Rosely e Luiz Carlos curtindo férias, com Anna e Paola visitando sozinhas a avó (pegando o ônibus da Barra, onde o Enrico morava, até o Leme). Mamãe ia com frequência para São Paulo e algumas tias e primas visitavam a gente. A casa sempre estava aberta para quem chegasse para passar uns dias no Rio. Naquele apartamento, a Rosely celebrou seus 40 anos, vimos Enrico e Vera voltarem a namorar e ele retornar para morar em São Paulo e recasar com a Vera, em uma bela festa. Ali, a Olivia passou também algumas férias com a avó. Ela tomava o ônibus em São Carlos e mamãe a pegava na rodoviária do Rio. Dali, depois de vários anos, mamãe pegava um ônibus para visitar a Vera na casa de Itamambuca. Foram dez anos de Rio de Janeiro. Eu fiquei sete e voltei para trabalhar em São Paulo e mais uma vez morar com o Chris na casa da George Ohm, mas este é outro capítulo...
Lena na Souza Cruz em tempo de máquina de escrever!