Voltando um pouco
no tempo... A virada do ano 1999 para 2000 marcou a reunião das famílias
Rastelli e Miessva. Todos na praia de Itamambuca, na então casa nova da Vera e
Enrico, na rua 13, onde ficaram alguns e outros hospedados na casa que tinham
construído antes, a da casa da rua 9. Três irmãos e três irmãs, maridos,
esposas, filhos e filhas, sobrinhos e muito movimento. Todos vestidos com camisetas
brancas com o ano 2000 em dourado, dadaa pelo casal Enrico e Vera. Por volta de
dez horas, com um acidente em um transformador na rua, acaba a luz!
Improvisação para organizar a ceia na sacada da frente, brincadeiras do
Gianpaolo e do Enrico, muita confusão e alegria. Ainda não tínhamos crianças na
família e Odette recuperava-se do tumor retirado anos antes, que limitou
gradativamente sua mobilidade. Luisa chegaria já no novo milênio, em 7 de
fevereiro de 2001.
O ano 2000 trouxe a
perda do Peter, de forma precoce, aos 58 anos, deixando Muqui e os filhos
Chris, Betina, André e Júlia. Não ouviríamos mais suas risadas nem teríamos suas
brincadeiras – às vezes um pouco impertinentes, é verdade. Minha preocupação
era que ele tivesse partilhado com o filho Christian a história vivida com a
Toy. Ao longo de sua vida, falar dela era muito difícil, senão impossível. Ao
chegar no velório, Chris me contou que semanas antes haviam tido uma conversa e
Peter contou a história de amor, dor e de realização – afinal, estava ali a concretização
daquela união - um homem que também seria pai e descobriria que o ato de amar um
filho é interminável.
Entre meados dos
anos 1990 e primeira década dos anos 2000, também tivemos a perda de muitos
tios, com momentos de compartilhamento de lembranças, risos e choros entre
sobrinhos e primos no cemitério do Araçá.
Enquanto os mais
velhos partiam, chegava a quarta geração, primeiro com Luisa, que nasceu na
mesma maternidade onde o ‘tio’ Christian tinha nascido décadas antes. No bairro
da Vila Nova Conceição, berço do crescimento das gerações Miessva, ela foi
saudada pelas mulheres da família – Odette, Vera e a mãe Anna.
Em setembro de
2001, no dia 14 – entre o dia de nascimento de sua avó Toy (dia 13) e sua tia
Julia (dia 15), nascia João Pedro, com cachinhos escuros herdados da mãe, mas que
lembravam a avó Toy. Escolhida pelos pais Christian e Fabiana como sua
madrinha, eu corri para chegar à maternidade que ficava no Morumbi, mesmo
bairro que eu e mamãe morávamos próximas. Como criança não espera para nascer,
quando cheguei ao andar da maternidade, Chris já estava com ele e me mostrou
pelo vidro aquele pinguinho de gente, em meio às nossas lágrimas. Mais tarde,
no mesmo dia, foi a vez da bisavó Odette conhecê-lo. Escrevemos algumas
palavras em um livro, montado pela Fabiana, para saudar seu nascimento.
O ano de 2002 marcou
a entrada de Olívia e de Beatriz na vida universitária e saída da casa dos
pais. Olívia foi morar alguns meses com a avó Odette – que já não estava bem de
saúde e tinha rompantes nervosos – e em um destes, ela teve que sair da casa da
avó e ir morar com outras meninas. Se por um lado, foi triste vê-la sair de um abrigo
familiar, por outro permitiu que amadurecesse e pudesse construir sua vida em
São Paulo, trabalhando e estudando Relações Públicas na USP. Bia foi morar na
Praia Grande e estudar biologia marinha na Unesp, onde conheceu Mateus, seu
futuro companheiro.
O dia 26 de abril
de 2004 marcou a chegada de mais um filho do Chris e Fabiana – Luiz Felipe,
recebido com carinho por todos nós. João Pedro estava ansioso pela chegada do
irmão, com quem imaginava partilhar logo brincadeiras e risadas. Mas constatou rápido
a realidade do início da vida quando, meses depois, certo dia, olhou firme para
o irmão e disse enfaticamente para o pai:
- “Mas ele só
dorme!”
No início de 2007,
Luisa passou a ter a mesma expectativa, com a futura chegada da irmã. E, em 15
de outubro de 2007 nasceu Catarina Rastelli Lapa. Naquela noite, enquanto Luisa
e eu ficávamos no quarto na maternidade, Paola levou uma roupinha, pedida pelo
Lauro, que estava no centro cirúrgico com Anna. E nada de voltar. Eu e Luisa já
tínhamos esgotado nosso repertório de músicas e brincadeiras. De repente, Paola
entrou chorando. No primeiro momento fiquei assustada, mas logo relaxei quando
ela disse que tinha visto o nascimento da sobrinha e que era linda e que tinha
sido maravilhoso. Então, depois de mais de um século, uma nova Catarina estava na
família. Uma menina doce e carinhosa e muito emotiva, com lágrimas que surgem
facilmente em seus olhos, sempre profundos.
Enquanto os pequenos
cresceram e movimentaram as nossas vidas, Odette viveu seus últimos dois anos
morando na casa da filha Rosely, em São Carlos. A decisão de ela morar com Rose
foi tomada depois de um incêndio no apartamento dela e logo após eu ter tido um
sério problema de saúde – estresse agudo que culminou com internação com alta
pressão no hospital e tratamento por vários anos. Nestes dois anos, a visitei
várias vezes na casa da Rose em São Carlos, onde ela pode curtir os netos que
sempre moravam distantes. As vezes ia com Christian e seus filhos, às vezes com
Vera ou sozinha. Catarina ainda conheceu a bisavó, em uma viagem com a nonna
Vera, tia Lena e a mãe Anna.
Neste período, meu casamento
já estava dando sinais de falecimento e, em 2008 só faltavam detalhes financeiros
que seriam resolvidos para eu iniciar uma nova etapa.
No início de julho
de 2008, em uma curta semana de férias que tirei para ficar com Vera na praia,
recebemos o telefonema de Rosely. Fui com Christian para São Carlos. Ali, na
nova enfermaria do hospital municipal de São Carlos, os netos que conviveram
com ela aqueles dois últimos anos puderam se despedir e o neto mais velho pode
abraçá-la mais uma vez. De forma impressionante, mas não surpreendente, ela se
manteve lúcida quase até o final de sua vida. E na noite de 6 para 7 de julho
de 2008, passou suas últimas horas ouvindo eu contar várias histórias de sua
vida. Tirou um pequeno anel de seu dedo direito e me deu. Naquele momento, ao
fitar aqueles olhos que sempre foram tão vivos e me orientaram tantas vezes, procurei
reter todo o amor que recebi ao longo de sua vida. Na manhã do dia 7 de julho,
quando eu já estava na casa da Rose, ela nos deixou, amparada pela cuidadora e
enfermeiras do hospital. Rosely chegou em casa e nos abraçamos, chorando. Horas
depois, Vera chegou de São Paulo e ali choramos não só a partida da mãe, mas a
falta que suas risadas e seu carinho fariam em nossas vidas.
Há muitos anos,
escrevi um texto lido em uma celebração de aniversário de mamãe, a Odette. Encerro
este capítulo de chegadas e partidas com ele:
Falar
da Odete é falar de boas risadas, de brincadeiras de roda e de músicas infantis
ensinadas para as gerações que gerou.
Mulher
forte, que tantas vezes engoliu seu choro para não deixar tristes filhas, netos
e genros.
Nascida
no meio do campo, criou histórias com suas lembranças da fazenda, do cafezal em
flor e das noites de luar. Dos patinhos no meio da chuva, do leite quente
colhido e tomado pela manhã, ainda na cama. Do pai sempre gentil e atencioso,
da mãe, severa e bela.
Com
os irmãos, aprendia futebol. Pelos irmãos, preparava os mais gostosos quitutes,
saboreados pelas mais de 12 pessoas reunidas na grande mesa da casa. Pelas
irmãs, costurava um vestido aqui, ajeitava um penteado ali. Tudo para fazer os
outros felizes. Na juventude, descobria a alegria dos bailes, dos flertes, dos
namorados. E lá estava presente a sua risada alegre sempre contagiando o
ambiente.
Amizades
cultivadas ao longo da vida. Com frequência, usam o telefone para manter os
laços vivos. Lembram histórias de ontem e riem das dificuldades de hoje.
Com
Ignácio, seu companheiro de vida, construiu uma família, feita de mulheres
alegres e fortes. Criadas à sua semelhança, aprenderam a não desistir jamais
diante dos problemas. Sempre há uma solução. É só rezar, pedir ajuda a Deus e
jamais perder a fé a confiança em si.
Sua
casa sempre esteve aberta. Por ela passaram sobrinhos, amigas, filhas em
momentos difíceis, netos e netas. Não importava onde estava morando. A porta se
abria, o cheiro da comida no forno surgia. Roupa limpa de cama e de banho
estava logo ali, pronta. E, depois, sempre tinham as conversas até altas horas
da noite. Afinal, ela nunca foi de acordar cedo, mesmo!
Sua
mão de fada-madrinha sempre aparecia para dar um toque especial. Foi assim com
os vestidos de Vera, Rosely e Lena para o casamento de sua filha mais velha, a
Toy.
E
também foi assim com as toucas e roupas de bebê feitas com carinho para os seus
primeiros netos Christian, Anna e Paola. Com estes seus três pequenos
companheiros, viveu muitas histórias, criou brincadeiras. Sempre em meio do
preparo das balas de café, das receitas de brigadeiro, e da paçoca feita para
comemorar as festas juninas.
Eles
cresceram com ela ao seu lado. Dirigindo o carro, preparando festas, fazendo
bolos criados com carinho e criatividade. Uma pequena boneca logo se tornava
uma princesa, com vestido decorado com flores de glacê...
Depois
chegaram os gêmeos Beatriz e Octavio. E lá estava ela de novo, firme e forte.
Ao lado da filha Rosely, do genro Luiz Carlos e da nova família que nascia em
São Carlos, transmitindo energia, brincando com o genro, trocando os netos, e –
mais uma vez - ensinando jovens a lidar com crianças.
Mais
um ano e pouco, era avó de novo. Nascia Olivia, a neta que de tanto gostar
dela, se autodenominava “sua filhinha”. Que alegria sentia ao esperar a neta
chegar sozinha no rio de janeiro, depois de mais de oito horas de viagem de
ônibus, para passar as férias com a avó. E então, por último, nascia Felipe, o
neto caçula que na praia do Leme, logo fazia novas amizades, lembrando o jeito
de ser da avó.
Os
anos passaram e uma nova geração chegou com a pequena Luisa. Mais uma vez, a
sua casa encheu-se de risadas infantis, de músicas de roda, de bonecas, de
roupinhas de lã feitas com tanto amor. E depois nascia João Pedro, com
cachinhos herdados da mãe Fabiana, mas que lembram tanto a filha Toy, criança
com profundos olhos azuis.
Odete... Durante mais de oito décadas vem mostrando
que o espírito jovem pode e deve ser mantido.
Odete... Ao longo de sua vida, ganhou outras filhas –
como Idalina, Idaicy e tantas outras.
Odete....
Avó de tantos outros netos que nas festas estão sempre rindo de suas
brincadeiras e ouvindo suas estórias.
Odete....
Exemplo de força e alegria. Que amanhã estará abrindo mais uma vez a janela,
arrumando a sua roupa e se preparando para mais um dia que pode trazer
telefonemas, surpresas, visitas e muitas risadas.
Odete....
Muito obrigado por você existir! Parabéns pelo seu dia de aniversário!









