terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas, ou vice-versa

Voltando um pouco no tempo... A virada do ano 1999 para 2000 marcou a reunião das famílias Rastelli e Miessva. Todos na praia de Itamambuca, na então casa nova da Vera e Enrico, na rua 13, onde ficaram alguns e outros hospedados na casa que tinham construído antes, a da casa da rua 9. Três irmãos e três irmãs, maridos, esposas, filhos e filhas, sobrinhos e muito movimento. Todos vestidos com camisetas brancas com o ano 2000 em dourado, dadaa pelo casal Enrico e Vera. Por volta de dez horas, com um acidente em um transformador na rua, acaba a luz! Improvisação para organizar a ceia na sacada da frente, brincadeiras do Gianpaolo e do Enrico, muita confusão e alegria. Ainda não tínhamos crianças na família e Odette recuperava-se do tumor retirado anos antes, que limitou gradativamente sua mobilidade. Luisa chegaria já no novo milênio, em 7 de fevereiro de 2001.
O ano 2000 trouxe a perda do Peter, de forma precoce, aos 58 anos, deixando Muqui e os filhos Chris, Betina, André e Júlia. Não ouviríamos mais suas risadas nem teríamos suas brincadeiras – às vezes um pouco impertinentes, é verdade. Minha preocupação era que ele tivesse partilhado com o filho Christian a história vivida com a Toy. Ao longo de sua vida, falar dela era muito difícil, senão impossível. Ao chegar no velório, Chris me contou que semanas antes haviam tido uma conversa e Peter contou a história de amor, dor e de realização – afinal, estava ali a concretização daquela união - um homem que também seria pai e descobriria que o ato de amar um filho é interminável.
Entre meados dos anos 1990 e primeira década dos anos 2000, também tivemos a perda de muitos tios, com momentos de compartilhamento de lembranças, risos e choros entre sobrinhos e primos no cemitério do Araçá.  
Enquanto os mais velhos partiam, chegava a quarta geração, primeiro com Luisa, que nasceu na mesma maternidade onde o ‘tio’ Christian tinha nascido décadas antes. No bairro da Vila Nova Conceição, berço do crescimento das gerações Miessva, ela foi saudada pelas mulheres da família – Odette, Vera e a mãe Anna.
Em setembro de 2001, no dia 14 – entre o dia de nascimento de sua avó Toy (dia 13) e sua tia Julia (dia 15), nascia João Pedro, com cachinhos escuros herdados da mãe, mas que lembravam a avó Toy. Escolhida pelos pais Christian e Fabiana como sua madrinha, eu corri para chegar à maternidade que ficava no Morumbi, mesmo bairro que eu e mamãe morávamos próximas. Como criança não espera para nascer, quando cheguei ao andar da maternidade, Chris já estava com ele e me mostrou pelo vidro aquele pinguinho de gente, em meio às nossas lágrimas. Mais tarde, no mesmo dia, foi a vez da bisavó Odette conhecê-lo. Escrevemos algumas palavras em um livro, montado pela Fabiana, para saudar seu nascimento.
O ano de 2002 marcou a entrada de Olívia e de Beatriz na vida universitária e saída da casa dos pais. Olívia foi morar alguns meses com a avó Odette – que já não estava bem de saúde e tinha rompantes nervosos – e em um destes, ela teve que sair da casa da avó e ir morar com outras meninas. Se por um lado, foi triste vê-la sair de um abrigo familiar, por outro permitiu que  amadurecesse e pudesse construir sua vida em São Paulo, trabalhando e estudando Relações Públicas na USP. Bia foi morar na Praia Grande e estudar biologia marinha na Unesp, onde conheceu Mateus, seu futuro companheiro.
O dia 26 de abril de 2004 marcou a chegada de mais um filho do Chris e Fabiana – Luiz Felipe, recebido com carinho por todos nós. João Pedro estava ansioso pela chegada do irmão, com quem imaginava partilhar logo brincadeiras e risadas. Mas constatou rápido a realidade do início da vida quando, meses depois, certo dia, olhou firme para o irmão e disse enfaticamente para o pai:
- “Mas ele só dorme!”
No início de 2007, Luisa passou a ter a mesma expectativa, com a futura chegada da irmã. E, em 15 de outubro de 2007 nasceu Catarina Rastelli Lapa. Naquela noite, enquanto Luisa e eu ficávamos no quarto na maternidade, Paola levou uma roupinha, pedida pelo Lauro, que estava no centro cirúrgico com Anna. E nada de voltar. Eu e Luisa já tínhamos esgotado nosso repertório de músicas e brincadeiras. De repente, Paola entrou chorando. No primeiro momento fiquei assustada, mas logo relaxei quando ela disse que tinha visto o nascimento da sobrinha e que era linda e que tinha sido maravilhoso. Então, depois de mais de um século, uma nova Catarina estava na família. Uma menina doce e carinhosa e muito emotiva, com lágrimas que surgem facilmente em seus olhos, sempre profundos.
Enquanto os pequenos cresceram e movimentaram as nossas vidas, Odette viveu seus últimos dois anos morando na casa da filha Rosely, em São Carlos. A decisão de ela morar com Rose foi tomada depois de um incêndio no apartamento dela e logo após eu ter tido um sério problema de saúde – estresse agudo que culminou com internação com alta pressão no hospital e tratamento por vários anos. Nestes dois anos, a visitei várias vezes na casa da Rose em São Carlos, onde ela pode curtir os netos que sempre moravam distantes. As vezes ia com Christian e seus filhos, às vezes com Vera ou sozinha. Catarina ainda conheceu a bisavó, em uma viagem com a nonna Vera, tia Lena e a mãe Anna.
Neste período, meu casamento já estava dando sinais de falecimento e, em 2008 só faltavam detalhes financeiros que seriam resolvidos para eu iniciar uma nova etapa.
No início de julho de 2008, em uma curta semana de férias que tirei para ficar com Vera na praia, recebemos o telefonema de Rosely. Fui com Christian para São Carlos. Ali, na nova enfermaria do hospital municipal de São Carlos, os netos que conviveram com ela aqueles dois últimos anos puderam se despedir e o neto mais velho pode abraçá-la mais uma vez. De forma impressionante, mas não surpreendente, ela se manteve lúcida quase até o final de sua vida. E na noite de 6 para 7 de julho de 2008, passou suas últimas horas ouvindo eu contar várias histórias de sua vida. Tirou um pequeno anel de seu dedo direito e me deu. Naquele momento, ao fitar aqueles olhos que sempre foram tão vivos e me orientaram tantas vezes, procurei reter todo o amor que recebi ao longo de sua vida. Na manhã do dia 7 de julho, quando eu já estava na casa da Rose, ela nos deixou, amparada pela cuidadora e enfermeiras do hospital. Rosely chegou em casa e nos abraçamos, chorando. Horas depois, Vera chegou de São Paulo e ali choramos não só a partida da mãe, mas a falta que suas risadas e seu carinho fariam em nossas vidas.
Há muitos anos, escrevi um texto lido em uma celebração de aniversário de mamãe, a Odette. Encerro este capítulo de chegadas e partidas com ele:

Falar da Odete é falar de boas risadas, de brincadeiras de roda e de músicas infantis ensinadas para as gerações que gerou.
Mulher forte, que tantas vezes engoliu seu choro para não deixar tristes filhas, netos e genros.
Nascida no meio do campo, criou histórias com suas lembranças da fazenda, do cafezal em flor e das noites de luar. Dos patinhos no meio da chuva, do leite quente colhido e tomado pela manhã, ainda na cama. Do pai sempre gentil e atencioso, da mãe, severa e bela.
Com os irmãos, aprendia futebol. Pelos irmãos, preparava os mais gostosos quitutes, saboreados pelas mais de 12 pessoas reunidas na grande mesa da casa. Pelas irmãs, costurava um vestido aqui, ajeitava um penteado ali. Tudo para fazer os outros felizes. Na juventude, descobria a alegria dos bailes, dos flertes, dos namorados. E lá estava presente a sua risada alegre sempre contagiando o ambiente.
Amizades cultivadas ao longo da vida. Com frequência, usam o telefone para manter os laços vivos. Lembram histórias de ontem e riem das dificuldades de hoje.
Com Ignácio, seu companheiro de vida, construiu uma família, feita de mulheres alegres e fortes. Criadas à sua semelhança, aprenderam a não desistir jamais diante dos problemas. Sempre há uma solução. É só rezar, pedir ajuda a Deus e jamais perder a fé a confiança em si.
Sua casa sempre esteve aberta. Por ela passaram sobrinhos, amigas, filhas em momentos difíceis, netos e netas. Não importava onde estava morando. A porta se abria, o cheiro da comida no forno surgia. Roupa limpa de cama e de banho estava logo ali, pronta. E, depois, sempre tinham as conversas até altas horas da noite. Afinal, ela nunca foi de acordar cedo, mesmo!
Sua mão de fada-madrinha sempre aparecia para dar um toque especial. Foi assim com os vestidos de Vera, Rosely e Lena para o casamento de sua filha mais velha, a Toy. 
E também foi assim com as toucas e roupas de bebê feitas com carinho para os seus primeiros netos Christian, Anna e Paola. Com estes seus três pequenos companheiros, viveu muitas histórias, criou brincadeiras. Sempre em meio do preparo das balas de café, das receitas de brigadeiro, e da paçoca feita para comemorar as festas juninas.
Eles cresceram com ela ao seu lado. Dirigindo o carro, preparando festas, fazendo bolos criados com carinho e criatividade. Uma pequena boneca logo se tornava uma princesa, com vestido decorado com flores de glacê...
Depois chegaram os gêmeos Beatriz e Octavio. E lá estava ela de novo, firme e forte. Ao lado da filha Rosely, do genro Luiz Carlos e da nova família que nascia em São Carlos, transmitindo energia, brincando com o genro, trocando os netos, e – mais uma vez - ensinando jovens a lidar com crianças.
Mais um ano e pouco, era avó de novo. Nascia Olivia, a neta que de tanto gostar dela, se autodenominava “sua filhinha”. Que alegria sentia ao esperar a neta chegar sozinha no rio de janeiro, depois de mais de oito horas de viagem de ônibus, para passar as férias com a avó. E então, por último, nascia Felipe, o neto caçula que na praia do Leme, logo fazia novas amizades, lembrando o jeito de ser da avó.
Os anos passaram e uma nova geração chegou com a pequena Luisa. Mais uma vez, a sua casa encheu-se de risadas infantis, de músicas de roda, de bonecas, de roupinhas de lã feitas com tanto amor. E depois nascia João Pedro, com cachinhos herdados da mãe Fabiana, mas que lembram tanto a filha Toy, criança com profundos olhos azuis.
Odete...    Durante mais de oito décadas vem mostrando que o espírito jovem pode e deve ser mantido.
Odete...   Ao longo de sua vida, ganhou outras filhas – como Idalina, Idaicy e tantas outras.
Odete.... Avó de tantos outros netos que nas festas estão sempre rindo de suas brincadeiras e ouvindo suas estórias.
Odete.... Exemplo de força e alegria. Que amanhã estará abrindo mais uma vez a janela, arrumando a sua roupa e se preparando para mais um dia que pode trazer telefonemas, surpresas, visitas e muitas risadas.
Odete.... Muito obrigado por você existir! Parabéns pelo seu dia de aniversário! 


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Casa do Brooklin recebe novas gerações

No início, quando ali chegamos, na década de 1970, a rua não era nem asfaltada. A escuridão à noite imperava, pois não existia a Av. Luiz Carlos Berrine – a rua Texas terminava em uma avenida que terminava em nada e ao fundo se via a Marginal Pinheiros.
A casa que nos abrigou por alguns anos e foi palco de minha adolescência e da infância de Christian, Annamaria e Paola, e também os gêmeos Octávio e Beatriz ainda bem pequenos, foi alugada quando mamãe e eu retornamos para a Vila Nova Conceição e depois quando fomos para o Rio de Janeiro. No início dos anos 1990, com governo Collor, inflação descontrolada, planos econômicos mirabolantes sem resultados efetivos, decidi voltar para São Paulo e mamãe resolveu ficar no Rio de Janeiro. Para viabilizar isto, era preciso retomar a casa dos então inquilinos, e achar um emprego na capital paulista. Foi um tempo em que a sobrinha Annamaria mandava toda segunda-feira o caderno de classificados do Estadão para mim pelo correio, que chegava no meio da semana, quando eu procurava e respondia os anúncios. Ao mesmo tempo, Christian decidiu sair da casa dos pais. Então, por que não morar juntos mais uma vez e na George Ohm? Ele se muda para lá seis meses antes de eu conseguir o emprego na Cargill. A mudança foi feita em dois carros, com a ajuda de Christian, Paola e de alguns amigos dele – roupas, livros, discos e quase nada mais, parodiando uma velha canção. Na chegada, a prima Idaicy me deu uma cama, Ana Maria (Muqui) nos deu uma estante e mural de couro para a sala. Comprei televisão e um aparelho de vídeo (lembrando que CD não tinha nascido...), geladeira, fogão e aos poucos fomos arrumando a casa. Eric, primo do Chris, morou alguns meses conosco. Eduardo, amigo do Chris, outros poucos meses. Ao desmontar o apartamento do Eric, Cristina – tia do Chris – nos deu muita coisa e precisamos várias viagens de carro do Morumbi para o Brooklin, feitas com entusiasmo em ver a casa tomando forma de lar.
Então, decidimos reformar a casa – tarefa que ficou sob a responsabilidade da Vera Cecília, que ali também montou o seu atelier e onde pintou por um tempo. Christian teve o quarto que sempre sonhou – feito para o seu tamanho – com uma cama alta, em que ele podia sentar e balançar os pés!
Ali ficamos alguns anos, com a companhia do nosso cachorro Nero – até o Christian se casar e eu também. Ele ainda fez mais uma mudança antes do casamento, indo morar alguns meses com a mamãe, que já tinha voltado do Rio de Janeiro e estava também no Brooklin. A casa ficou para ser alugada por um tempo, sem sucesso. Então, mamãe decidiu voltar a morar novamente ali, onde convivia com antigos vizinhos e amigos.

Os anos passaram e a casa mais uma vez teria uma mudança, para receber Annamaria, Lauro e aquela que seria a primeira da nova geração da família – Luisa. Foi ali que ela chegou da maternidade São Luiz, no dia 7 de fevereiro de 2001. Foi ali que deu seus primeiros passos, teve sua festa de primeiro ano e onde recebia sempre o carinho nas visitas de todos, em especial da sua tia Paola, que também morava no Brooklin. Neste período, mamãe voltou a ficar perto de mim, morando no Morumbi, em um apartamento alugado a duas quadras de onde eu estava. 
Rua George Ohm, 290. Mais que uma casa. O lar da nossa família. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Descasamentos e mudanças

A década de 1980 começou movimentando a nossa vida. Depois de muitas brigas, conversas e tristeza de ambos os lados, Vera e Enrico separaram-se e a casa construída na Granja Viana foi vendida. Na mesma época, logo após um Natal, mamãe não passou bem e fomos ao pronto socorro do Hospital São Luiz pois eu e ela estávamos passando a tarde com tio Rui e tia Tibi, no apartamento da Av. Santo  Amaro. O parecer do médico é que ela deveria se poupar e evitar morar em casa com escada. Então, nos mudamos para um apartamento na rua Eduardo Souza Aranha, na Vila Nova Conceição, bairro com tantas memórias afetivas para todos nós. Ela estranhou um pouco, pois no Brooklin conhecia todo mundo e morar em prédio era outra realidade. Mas, passado um tempo, quem vem morar perto da gente??? Vera, Anna e Paola, no Itaim Bibi, em um apartamento que eu e Vera achamos andando de moto (eu já tinha minha motocicleta – o veículo da casa!). Então, todas as manhãs, mamãe acordava cedinho para ficar na janela e acenar para Anna e Paola que tomavam o ônibus para a escola na Av. JK. E depois voltava a dormir! E nos domingos, Vera vinha com as meninas comer pizza ou a gente ia até o apartamento dela. Vera voltou a trabalhar na área de decoração e continuamos também a conviver com o Enrico – que independente de estar ou não separado, sempre fez parte da família.
Em 1984, Christian foi morar com Ernie e Hela nos Estados Unidos e nos reunimos para a despedida. Eu estava muito triste e Chris achou que era pela sua partida, ao que a Anna explicou:
- Não se preocupe, ela está chorosa porque terminou um namoro!
No final de 1984, depois de quatro anos e meio trabalhando no Grupo Pão de Açúcar, resolvo procurar outro emprego e respondo a um anúncio publicado na Folha de S. Paulo. Me lembro que pensei: tenho menos de 30 anos (o que pediam), tenho mais de três anos de experiência (idem!), tenho disponibilidade para viajar (idem!!!), tenho disponibilidade para mudar de cidade (idem!!!). Então, por que não mandar o CV e ainda enviar alguns exemplares do jornal interno que escrevo? Depois de um processo seletivo com mais de 70 pessoas, fui a escolhida e assim a próxima mudança seria mais radical: iria morar no Rio de Janeiro. Ainda que soubesse ser este um grande sonho de mamãe, perguntei se ela queria ir ou ficar em São Paulo. E a resposta veio unindo o emocional com o racional:
- Lena, você vai ter viajar bastante, não conhece ninguém lá e vai precisar de uma retaguarda para se dedicar à profissão e ficar tranquila. 
E aí completou, tendo uma intuição:
 - Procure um apartamento que tenha palmeiras e jardim.
Eu ri e respondi:
- E onde eu vou achar o apartamento que você está vendo??
Mas lá fui eu no dia 2 de janeiro de 1985. Como tudo na vida é orquestrado, Enrico nesta época já morava lá, trabalhando como diretor geral da Mido Relógios. No primeiro sábado, fui à procura de um apartamento para alugar e não é que achei mesmo o tal lugar? Uma cobertura no Leme, pequena, mas com um jardim grande, palmeiras, plantas. 15 dias depois, a mudança chegou, organizada pela Vera e mamãe em São Paulo, que viajaram de trem para o Rio de Janeiro. E assim teve início um bom período em nossas vidas, bem divertido, em meio a trabalho primeiro na Souza Cruz e depois na Bayer, com os passeios que fazíamos, com os namorados que eu tinha, com as ‘aventuras’ da Odette no Rio de Janeiro, cidade que tinha tudo a ver com ela! Teve um dia que contei no relógio – da praia do Leme até a porta do prédio, demoramos 45 minutos! Isto para percorrer quatro quarteirões. Mas andar com ela no bairro era assim mesmo, parava para conversar com todo mundo, conhecia todos os comerciantes da rua, fazia amizades na agência bancária. Ficou até amiga do dono do apartamento que ia visitar a gente de vez em quando.
Ali, passamos finais de ano na praia sozinhas ou com sobrinhos, netos, amigos e amigas vindos de São Paulo, com as crianças de Rosely e Luiz Carlos curtindo férias, com Anna e Paola visitando sozinhas a avó (pegando o ônibus da Barra, onde o Enrico morava, até o Leme). Mamãe ia com frequência para São Paulo e algumas tias e primas visitavam a gente. A casa sempre estava aberta para quem chegasse para passar uns dias no Rio. Naquele apartamento, a Rosely celebrou seus 40 anos, vimos Enrico e Vera voltarem a namorar e ele retornar para morar em São Paulo e recasar com a Vera, em uma bela festa. Ali, a Olivia passou também algumas férias com a avó. Ela tomava o ônibus em São Carlos e mamãe a pegava na rodoviária do Rio. Dali, depois de vários anos, mamãe pegava um ônibus para visitar a Vera na casa de Itamambuca. Foram dez anos de Rio de Janeiro. Eu fiquei sete e voltei para trabalhar em São Paulo e mais uma vez morar com o Chris na casa da George Ohm, mas este é outro capítulo...
Lena na Souza Cruz em tempo de máquina de escrever!
  

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Uma família prá lá de unida!

No dia 25 de outubro de 1979, às 7:30 e 7:32 horas, em São Carlos, nasciam os gêmeos Beatriz e Octávio Miessva Acerbi, filhos de Rosely e Luiz Carlos. Mamãe já estava lá para ajudar a Rose que nos últimos meses de gravidez não achava mais posição para dormir. Assim que recebi o telefonema da mamãe, liguei para a Vera e fomos de carro para lá. Foi uma viagem gostosa e com expectativa – afinal, nós duas novamente éramos tias depois de onze anos.

Foram dias felizes, com uma rotina diferente – tudo tinha que ser em dobro – dar banho, trocar e ajudar a Rosely nas tarefas. Octávio logo ganhou apelido– era o Tatá e a Beatriz virou Bia. Mamãe ficou um tempo lá e, depois de alguns meses, foi a minha vez de ajudar a Rose e Luiz Carlos. De manhã cedinho, levava os dois para a pracinha perto que tinha uma locomotiva. Ficava ali um tempo e depois voltava para a Elaine – que foi babá dos dois – dar o almoço.   Lembro que na época aprendi a fazer suflê e entusiasmada, repeti o cardápio em duas ou três noites. Aí, o Luiz Carlos, com seu jeito tranquilo, virou para mim e disse que eu podia deixar o jantar por conta dele. Realmente, cozinha nunca foi o meu forte!
Chega mais uma princesa!
O tempo passa e no dia 9 de julho de 1981, às 19:22 horas, nascia Olívia Miessva Acerbi. E lá foi a Odette para São Carlos ajudar a família Acerbi. Olívia era uma criança sapeca e um pouco mais levada que os gêmeos... Tanto que assim que começou a engatinhar, nove meses, foi até a cozinha e bebeu detergente como se fosse mamadeira. Imaginem o susto. 
Precisou ficar internada um dia e meio!
E finalmente, chega o caçula da família!
E em 27 de agosto de 1983, às 13:30 horas, nascia o caçula da família. Caçula dos netos, caçula das tias Lena e Vera. E lá foi a Odette para São Carlos. Dessa vez, quando chegou Rosely já estava na maternidade e ela ficou com as crianças pois Octavio e Beatriz ficaram com catapora justo nesse dia. A família de Rosely e Luiz Carlos estava completa. Quatro filhos, quatro diferentes pilares – como costumava dizer meu pai quando se referia às quatro filhas. A casa desta família prá lá de unida tornou-se para todos nós sempre um local com muita alegria – com crianças, pizzas, cerveja, muita conversa na cozinha. Até hoje, mesmo com a casa em um jeito diferente, apenas com o casal Luiz Carlos e Rosely que recebem os filhos, as noras e os netos – mas estas novas histórias ainda vão ser contadas!

Gêmeos Tatá e Bia! 
Rose esperando Olívia com Lena e Odette e os gêmeos. 


A foto não está boa mas o momento foi memorável! Os três tocando flauta e Felipe na repercussão, prá variar, rindo!

terça-feira, 29 de julho de 2014

Família aumenta com pessoas muito queridas

No ano seguinte ao que a Vera conclui seu curso de decoração e artes na Faap – feito de 1971 a 1974 – e depois da morte de papai, em 1975,  Rosely e eu entramos para o cursinho pré-vestibular Equipe, que ficava no bairro da Bela Vista. Na mesma época, Rose começou o namoro com Luiz Carlos, que devagarinho, com seu jeito sempre risonho e disposto a ajudar, conquistou a todos na família. Entramos na faculdade – Rosely em terapia ocupacional na Faculdade de Medicina da USP e eu em comunicação na então FIAM, que ficava na Av. Jabaquara. Logo após ingressar na faculdade, fiz novos amigos – que tenho até hoje – principalmente por causa do grupo de teatro amador Alma. Joyce, Jô e eu, ao lado de Miriam, Denise e outros amigos, formávamos uma turma batalhadora, liderada pelo diretor e amigo Ivo.
Enquanto isto, curtíamos os sobrinhos Anna, Paola e Chris e os filhos de Peter e Ana Maria, principalmente nos finais do ano, quando chegavam trazendo os gostosos doces natalinos que ela preparava e embalava. A casa da rua George Ohm continuava recebendo amigos e familiares nas festas de aniversário. Transformávamos o quintal em mais um ambiente (era todo coberto) e mamãe sempre dava seu toque especial.
Para reforçar o orçamento familiar, mamãe começou a ser motorista de crianças, com o Fusca azul. Tudo começou com o filho Marcio, da Marina, amiga da Rose. Aí ela passou a levar três japonesinhos que haviam perdido recentemente a mãe. Então, outra amiga, a Verônica, também pediu para a mamãe levar seu filho Rodrigo. E duas gêmeas que entravam as sete da manhã, como ela conta:
- Eu levava as gêmeas, deixava o Marcio, pegava outro aluno, depois um casal que morava perto de casa soube que eu estava fazendo este serviço e pediu para eu levar seus filhos também. E tinha o Alberto, filho de uma amiga. Eu almoçava as três da tarde, depois de todo o trajeto. Ah, dava uma boa renda e ainda me divertia com as crianças. Algumas vezes, quando podia, eu ia com ela e me divertia em ver o orgulho das crianças em mostrar uma autêntica avó (um pouco diferente das avós da época, talvez mais moderna!) esperando-as na porta das escolas.
Em 1979, Rose e Luiz Carlos contam para nós que ela estava grávida – de gêmeos! Odete ligou para Irineia (mãe de Luiz Carlos) e as duas combinaram os detalhes do casamento civil, marcado para o dia 13 de junho no salão de festas do prédio onde a família de Luiz Carlos morava. De tarde, Vera fez a decoração do salão com muitas flores brancas. No início da noite, ao lado de amigos, primos, tios e tias – foi celebrada a união de Rosely e Luiz Carlos.  Abaixo dois momentos felizes da festa - irmãos, cunhadas e cunhados e as mães guerreiras ao lado de Ly e Lu!   
Após o casamento, os dois foram morar em São Carlos em uma casa alugada. A mudança, providenciada pelo Renê, irmão de Luiz Carlos, foi feita com o apoio da avó de Luiz Carlos, Elisa, e sua tia Zilda. Depois chegaram Irineia e , mamãe que, junto com a tia Zilda, lavaram a casa toda, como lembra mamãe:
- Imagina, três velhas lavando a casa e rindo! Tinha um pé de romã e na frente tinha um jardim meio abandonado. Aí fui arrumar o jardim e a Irineia dizia: Odete, não é para enfeitar, é para lavar!
Tudo estava preparado para a chegada dos gêmeos e logo, logo, seus irmãos, mas isto merece um capítulo que logo, logo vai chegar!


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Anos de aprendizado

Os anos iniciais da década de 1970 foram ricos em experiências para todos da família Miessva. Convivíamos com Anna e Paola nos finais de semana – quando Enrico e Vera muitas vezes deixavam as pequenas conosco na sexta-feira e buscavam aos domingos, na hora do almoço. Algumas vezes, Chris vinha nos sábados ou domingos e por algumas horas a casa da George Ohm virava um parque de diversões sob os olhos dos avós e das tias corujas.
Peter já tinha se casado com Ana Maria e logo mais nasceria o primeiro irmão do Chris – o André, que, ao lado de Betina e Júlia, nascidas anos depois, formaram a família do Christian.
Eu estava estudando no Colégio Estadual Oswaldo Cruz e convivia muito com os vizinhos e amigos do Brooklin. Tinha uma turma enorme e íamos para festivais de música estudantis e  para festas regadas a cerveja e violão. Fazíamos algumas viagens – e como meus pais não deixavam viajar sozinha com o namorado e amigos, a Rosely ia junto. Ela se divertia e conhecia novos lugares, como Búzios e São João Del Rey. No final de 1974, terminei um namoro de dois anos e até isto acabou virando mais história. Eu sabia que meu pai não gostava do rapaz. Ele era baiano com cabelo enroladinho, tocava violão e andávamos de ônibus por toda São Paulo. Era um rapaz inteligente, mas creio que talvez não fosse exatamente o que o papai desejava para a filha caçula. Até hoje em dia, fica difícil saber exatamente o que pais de meninas desejam como namorados ou maridos de suas filhas – parece que tem sempre um ‘porém’!
Enfim, certo dia, no café da manhã, papai me perguntou onde estava aquele rapaz que ele via de vez em quando em casa (exatamente assim!). Eu respondo imediatamente que a gente tinha acabado o namoro, com certa má vontade pois independente de ter acabado o namoro, sabia que não gostavam dele. Aí ele abriu um enorme sorriso e um pouco depois começou a cantar!
Em fevereiro de 1975, depois de quatro noites de Carnaval no Club Pinheiros, na companhia de mamãe (que aproveitava sempre para colocar a conversa em dia com as amigas), eu tinha saído com um rapaz e estava conversando no carro dele em frente de casa quando um dos meus amigos foi até lá – como eles muitas vezes iam para conversar com mamãe, não achei estranho. Mas, passados alguns minutos, este meu amigo me chamou e pediu para eu entrar. Ali, recebi a notícia da mamãe que papai tinha falecido. Ela, Rose e eu choramos juntas. O rapaz com quem eu estava saindo foi de uma gentileza enorme. Para evitar os trâmites burocráticos, precisávamos de uma declaração do médico que o atendia. Então, ele foi na casa do médico com Rosely. Com o primo José Carlos, ela também foi cuidar de outros trâmites dolorosos mas necessários naquele momento. Depois, ela voltou e nós duas fomos ao apartamento de Enrico e Vera dar a notícia. Enrico abriu a porta para nós e me lembro de que colocou a mão na cabeça e foi chamar a Vera. Ela veio de camisola e desmaiou ao ouvir a notícia. Foram momentos difíceis, mas que serviram para que mais uma vez mostrássemos a nossa união como irmãs e como família – cunhados, tios, primos, primas – todos ficaram conosco nos dias seguintes.
Mamãe, aos quase 59 anos de idade, começava mais uma etapa em sua vida, mostrando garra em lutar para que a nossa casa continuasse sempre sendo um lugar de abrigo a quem precisasse e de aconchego para nós três – ela, Rosely  e eu, que ali morávamos.  Com Vera, lidávamos com a perda de um homem especial que nos transmitiu valores como respeito ao próximo e a sabedoria em ouvir.
Afinal, com papai, aprendemos que a atitude diante da adversidade ou em tempos de bonança era o que fazia a diferença no trato com os outros e não necessariamente a religião ou a cultura aprendida em livros.  Foi-se o mestre e ficaram as alunas, que seguiram seus ensinamentos ao longo de suas vidas.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A guerreira em ação

Como a vida é construída por ciclos, os netos Chris e Anna fizeram papai voltar a sorrir e rir das travessuras infantis, ainda que tenha perdido certo brilho no olhar após a morte da Toy. Por um ano e meio, Peter e Christian moraram conosco na rua João Paes, no Brooklin Velho. Era uma casa enorme que tinha vários quartos e ainda duas salas no fundo. Em uma delas foi montado o escritório de papai e em outra funcionava o atelier de costura de mamãe. Aos domingos, a alegria ficava por conta das visitas da Anna com Vera e Enrico. Assim, graças às crianças, aos poucos, a alegria foi retornando para nossa família.
Então, mamãe mais uma vez mostrou uma garra incrível. Ao perceber que seu marido diminuía o ritmo de trabalho – talvez como reflexo do início da arteriosclerose – ela começou a vender os produtos da Rhodia. Depois de um curso de uma semana para aprender a usar os cosméticos, ela foi à luta, como lembra:
- Era assim: uma pessoa indicava uma amiga, eu pegava a maleta (que não era leve!) e ia visitar. Fazia a exposição dos produtos, fazia limpeza de pele, maquilagem e vendia. Também fazia vendas indo de porta em porta pois tinha que entregar o número combinado da produção. Pedidos feitos, eu ligava e depois de duas semanas, o caminhão entregava e na entrega dos pedidos, eu já ajeitava para fazer uma nova venda. Mas como só isto não estava rendendo muito, fui vender títulos do Montepio da Família Militar (que era uma forma de previdência privada). Umas amigas compravam para me ajudar, outras porque gostavam mesmo. E também organizava chás para vender produtos de limpeza americanos da Stanley Home, que eram espetaculares!
Odette foi ganhando mais prática em vendas (na verdade, era uma vendedora nata), e assim foi trabalhar com um conhecido em uma corretora, mostrando os imóveis e ganhando parte da comissão se a venda era concretizada. Com o que ela e papai tinham economizado e a possibilidade de fazer um empréstimo pela Caixa Econômica Federal para compra de imóvel, ela resolveu selecionar algumas casas novas no Brooklin Novo. Então combinou com Inácio para conhecerem melhor uma casa que ela havia gostado, como conta:
- Quando eu pus a chave na porta, o Inácio estava chegando também. Eu beijei a chave, e disse – “Inácio, vamos entrar na nossa casa!” A sala era iluminada, tudo novinho, com três dormitórios na parte superior e um quarto nos fundos ao lado da área de serviço e uma cozinha clara também.
Odette pintando o portão de madeira 
Inácio  no corredor da nova casa
A mudança demandou também certo desprendimento, pois morávamos em uma casa enorme e iríamos para uma bem menor. Assim, os móveis que não cabiam foram vendidos ou doados e fizemos a mudança com o que a casa poderia receber.  No quarto da frente, ficamos eu e a Idalina, que morava conosco. Rosely ficou com o quarto do meio e papai e mamãe ficaram no último. No quarto dos fundos foi instalado o escritório de papai. Naqueles anos de 1970, a rua George Ohm, no final da rua Arizona, não tinha calçamento nem iluminação. Foi muito bom ter vivido tantas mudanças naquele bairro gostoso em que as pessoas se conheciam e conversavam em um ritmo bem mais lento. A vizinhança fazia parte da vida, uns ajudando os outros.    
Esta nossa casa da rua George Ohm foi o porto seguro para toda a família durante mais de trinta anos, nos abrigando primeiro e depois as outras gerações. Ali Chris e Anna brincavam com velocípede e corriam na rua, no quintal e no corredor. 

Chris e Anna na mureta da casa. 


Foi nesta casa que em 22 de junho de 1973 recebemos um telefonema do Enrico avisando que ele e Vera já estavam no hospital para o nascimento do segundo filho – não existia ultrassom e a expectativa sobre menino ou menina era mantida até o nascimento. Mamãe foi para o hospital, onde encontrou Enrico e tia Giulianna (tia do Enrico) no corredor. Logo, a enfermeira chegou anunciando: é uma menina! E mamãe disse:
- Que Deus te abençoe, Paola, que veio para nossa felicidade! Seja bem vinda entre nós!
Mamãe lembra que tia Giulianna começou a chorar e o Enrico riu e a abraçou. E foi assim que naquele inverno chegou a Paola, nossa ruivinha de olhos azuis. Mais tarde, ela formou com Chris e Anna um trio inseparável e até hoje, não importa onde estejam, os três estão conectados. 

Foi naquela casa do Brooklin que passei minha adolescência e onde tinha um grupo enorme de amigos. Dali, saí para meu primeiro emprego aos 15 anos. Ali tive meu primeiro namorado e ali outras histórias foram vividas e serão contadas. Afinal, aquela foi a nossa casa!

domingo, 13 de abril de 2014

Vidas novas

A igreja de São José, no bairro Jardins, em São Paulo, estava lotada. Amigos, familiares, colegas de trabalho. Todos ali para celebrar o casamento de Vera Cecília e Enrico. Era 30 de novembro de 1968, e Vera ainda vivia um tempo de tristeza pela morte da irmã Toy, sua companheira de toda vida. Mas a data já estava marcada há algum tempo e não fazia sentido, segundo Enrico, adiar o que iria acontecer mesmo. Sempre prático e organizado, deve ter ficado nervoso na hora das alianças, ele esqueceu – seu irmão Gianpaolo tinha ido até a casa deles, mas não chegava e a cerimônia avançava... Então, não teve jeito. Os primos dos grandes amigos Eli e Keila, emprestaram suas alianças, que serviram perfeitamente!
Depois, foi a festa na casa de Dino e Anna Maria Rastelli, na Av. Pavão, de onde ela e Enrico saíram para ir para o aeroporto de Congonhas. Alias, naquela época, todo mundo levava os noivos para o aeroporto – era um programa que fazia parte do casamento! Eles foram para o Rio de Janeiro – cidade que sempre esteve na mira da família – pelo menos na mira da Odette, que adorava o Rio e ali viria residir décadas mais tarde.
Ao mesmo tempo, mudamos para o Brooklin Velho, na R. João Paes, onde o Peter e o Christian foram morar conosco. Vera e Enrico moravam na Av. São Gabriel e ela trabalhava na então Ciba Geigy, que ficava também no Brooklin. Na hora do almoço, aproveitava para ver a gente e curtir o sobrinho. Assim foi até 1970, durante a sua primeira gravidez. Mas antes um acontecimento trágico abalou toda a família. Toy havia nos deixado em 12 de outubro de 1968, seis meses depois os pais de Enrico tiveram um acidente de carro e a sogra da Vera faleceu. Foi uma tristeza muito grande para Vera pois sua sogra havia ajudado com todo enxoval, tinha ficado muito amiga dela e agora ela se sentia só com os quatro homens desta família.
Depois veio a viagem de Enrico e Vera em setembro e outubro de 1969 para a Vera conhecer a Itália e outros países da Europa... Foi para ela um mundo a descobrir e voltou encantada. Já falava italiano e voltou ainda mais feliz em conhecer a família de Enrico. Infelizmente quando estavam em Roma, o avô de Enrico faleceu. Foi um período difícil para ela, atenuado com a esperada gravidez.
Muitos na família temiam que acontecesse com a Vera o mesmo que havia ocorrido com a Toy. Mas, em 25 de novembro de 1970 chega à família uma bela menina com cabelos pretos. Odette e Ignacio foram para a maternidade assim que avisados. Ao chegar e ver o Enrico, Odette começou a chorar. Ele a abraçou e disse:
- Está tudo bem, dona Odette. Foi cesárea e elas estão bem.
Odette entrou no quarto florido e abraçou a filha:
- Ah Verinha, Deus te deu uma menininha!
- É, mãe. Ela vai se chamar Annamaria e o Enrico ficou tão contente!
Annamaria iniciou sua vida na família, fazendo companhia ao primo Christian em muitas idas à casa dos avós, em aniversários e em brincadeiras. Foi paparicada como neta única por dois anos. Então, chegou mais uma ruiva na família... Mas este capítulo fica para a próxima!  
Ignacio e Odette com Annamaria e Christian no jardim da casa de Dino Rastelli.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Lágrimas em cada rosto. Uma dor de todos.

Ninguém gosta de recordações tristes. Nenhuma família gosta de perder pessoas amadas. A minha família não é exceção. Talvez a exceção tenha sido que em uma família com tantos tios, tias, primos e primas que cresceram muito próximos, a doença e a morte de uma jovem de 26 anos tenham sido mais que um choque. Muitos dizem que foi um trauma familiar e não tenho dúvidas quanto a isto. Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos, nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos, primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com a Toy – durante um mês e meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. A conviver com a dor de uma doença que ninguém sabia direito mas que estava minando as forças dela. Ignácio, meu pai, foi desmoronando aos poucos e só conseguia energia para lidar com o escritório e clientes por muita determinação. Idalina, que trabalhava em nossa casa, passou a cuidar do Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório, onde ela ajudava meu pai. Em uma das conversas que tive com mamãe, para escrever este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela época. Ela, com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:
- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o Ignácio, tinha você – uma menina de quase 12 anos. Os parentes ajudavam, a equipe da Seara Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de turnos para nos ajudar também. A Vera se fazia de forte quando visitava a Toy e sofria, pois trabalhava na Ciba, tinha trabalhado no Hospital do Servidor Público, entendia dos termos médicos e perguntava tudo para os colegas. Eu não podia chorar em nenhum lugar, tinha que estar sempre alegre. Aí um dia, ao sair das Clínicas, peguei um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista encostar o carro e comecei a chorar. Aí ele me perguntou o que eu tinha e eu respondi: Me deixa chorar, senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no hospital.  E ele respondeu: Então, chora, dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu fiquei ali chorando. Cansei de tanto chorar.
Eu só vi minha irmã Toy durante sua doença uma única vez nas Clínicas – na época, havia restrição para entrada de crianças em visitas – e ela estava em um dos quartos divididos com outra pessoa. Em final de setembro, ela precisou amputar uma parte de uma perna por causa da doença. Na véspera de 12 de outubro de 1968, a Vera estava escalada para dormir com a Toy nas Clínicas. Ela pediu ao Peter que fosse em seu lugar, talvez pressentindo o que estava para acontecer. Toy conversou muito com o marido naquela noite, e, ao lado dele, morreu.
Meu pai, ao saber da morte da filha, abraçou minha mãe e disse:
- A nossa Toinha se foi, Odette.
E abraçados ali eles ficaram um longo tempo.
O enterro foi na tarde do dia seguinte. Desnecessário lembrar toda a dor que uma família enorme como era a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando veem o Chris em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que era uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe. Hoje, é um homem com dois filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo. Vamos voltar a 1968.
A Vera acordou no dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a roupa na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de algo. Odette olhou firme e respondeu:
- A vida continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.

E foi pegar o Christian no colo. A partir daquele momento, o neto mais velho foi tratado como um filho dela por toda a vida. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Chegada celebrada para dar força

Em dezembro de 1967, Ignacio e Odette completaram 25 anos de casados, com uma missa na Igreja São Dimas na Vila Nova Conceição. Depois, houve o almoço para as filhas na casa da Toy e do Peter, no Brooklin, na R. Pascoal Paes. Lena, a caçula, tinha escrito algo para homenagear os pais e, neste dia, Odette recebe do marido um longo texto lembrando a trajetória desde que se conheceram, quando ela ainda era adolescente.
Ainda no mesmo mês daquele ano, certa tarde, Odette recebe a visita da Toy no escritório da Av. Santo Amaro, onde trabalhava todas as tardes. Ela chega sorrindo, com dois picolés – uma para a mãe e outro para ela, abraça Odette e começa uma conversa animada:
- Mãe, eu tenho a melhor notícia que a senhora poderia ter na vida!
- Ora, Toy, o que é?
- A senhora vai ganhar o neto que tanto queria!
- Ah, Toy, que bom!!! Mas, você está bem?
- Sim, eu estou ótima! Eu fui ao médico e está tudo bem. O Peter está contente, a dna. Isolde também. E eu estou muito contente, mamãe.
- Então, você vai fazer tudo o que o médico mandar, está bem?
- Pode deixar comigo, que eu vou me cuidar.
E os meses passaram... Não havia ultrassom, não se sabia o sexo da criança e a expectativa era que chegasse um menino em uma casa com tantas mulheres. Um dia, Toy  foi ao escritório com um vestido de grávida bem curtinho. E, claro, Odette não poderia deixar passar em branco!
- Toy, como você está indecente, usando este vestido curto, roxo, e grávida! Não combina!
- Mamãe, você está muito fora de época! Agora, as grávidas usam estes vestidos soltos e curtos.
- Quero ver isto no inverno!
- Aí vamos pensar.
Junho chegou com frio e a Toy continuou com bom humor, sem enjoo. Trabalhou na Kibon até o final da gravidez. A escolha do enxoval também teve a participação da Odette, ‘intimada’ pela filha mais velha. Foram em uma loja na Av. Santo Amaro e escolheram rendinhas para a manta que seria amarela e teria bordados, e as camisinhas vestidas pelas crianças em uma época em que os macacões infantis ainda não tinham surgido. 
Em outra tarde, ela ligou para a mãe e comentou que teve um sonho e que seu filho se chamaria Christian. Peter, sempre brincalhão, dizia que o filho ia se chamar xaxim (sempre ligado em orquídeas!). Quando ela foi comprar o carrinho e o berço, pediu novamente a ajuda da Odette, que respondeu de bate e pronto:
-          Olha, Toy, se você está pensando que eu vou ajudar a criar o seu filho, você está enganada!  
Na loja, rindo, ela pediu para o vendedor ensinar a mãe a lidar com o carrinho azul, como se suspendia a capota dele e como se devia regular a altura do berço.
Em casa, Idalina, que tinha chegado para trabalhar ali um tempo antes, ajudava a cuidar de tudo. Ela ficaria com a família até se casar, conquistando um lugar especial na vida de todos. 
Para celebrar um ano de casamento, Toy estava preparando uma festinha, mas não deu tempo. Na manhã do dia 7 de julho – exatamente um ano após o seu casamento, tocou o telefone e Inácio atendeu. Rápido, acordou  sua mulher:
-          Odette, levanta, que a Toy já está no hospital com o Peter.
Os pais foram para o Hospital São Luiz, ali perto, e ela já estava na sala de parto. Peter estava sozinho na sala de espera e explicou logo que estava tudo correndo bem. Então, depois de um certo tempo (que pareceu muito para eles) entrou a enfermeira, dando a notícia: é um menino!
Odette começou a chorar e o Peter a abraçou, sorrindo e dizendo:
-          Fique contente, o Christian chegou!
Depois das visitas das irmãs e do tempo recomendado pelo médico, Toy teve alta e foi para sua casa com Christian. Uma semana depois, começou a ter febre alta e precisou ir para a nossa casa. Uma noite, teve uma forte crise de frio e  febre muito alta. A ambulância foi chamada e ela foi para o Hospital São Luiz. Ali, depois de vários exames, o médico chamou o Peter e disse que o problema era grave. Os dias foram passando, com mais exames, médicos e visitas de todos da família. Certa tarde, Odette levou o Christian para Toy vê-lo. Na saída, um enfermeiro se aproximou dela e disse sério:
-          Dna, Odette, a senhora conta com a gente.

Nesta hora, a mãe teve a certeza que a situação da saúde da filha mais velha era mesmo muito grave.