Ninguém gosta de recordações tristes. Nenhuma
família gosta de perder pessoas amadas. A minha família não é exceção. Talvez a
exceção tenha sido que em uma família com tantos tios, tias, primos e primas
que cresceram muito próximos, a doença e a morte de uma jovem de 26 anos tenham
sido mais que um choque. Muitos dizem que foi um trauma familiar e não tenho
dúvidas quanto a isto. Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos,
nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e
amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos,
primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com a Toy – durante um mês e
meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. A
conviver com a dor de uma doença que ninguém sabia direito mas que estava
minando as forças dela. Ignácio, meu pai, foi desmoronando aos poucos e só
conseguia energia para lidar com o escritório e clientes por muita
determinação. Idalina, que trabalhava em nossa casa, passou a cuidar do
Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório, onde
ela ajudava meu pai. Em uma das conversas que tive com mamãe, para escrever
este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela época. Ela,
com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:
- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o
Ignácio, tinha você – uma menina de quase 12 anos. Os parentes ajudavam, a
equipe da Seara Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de
turnos para nos ajudar também. A Vera se fazia de forte quando visitava a Toy e
sofria, pois trabalhava na Ciba, tinha trabalhado no Hospital do Servidor
Público, entendia dos termos médicos e perguntava tudo para os colegas. Eu não
podia chorar em nenhum lugar, tinha que estar sempre alegre. Aí um dia,
ao sair das Clínicas, peguei um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista
encostar o carro e comecei a chorar. Aí ele me perguntou o que eu tinha e eu
respondi: Me deixa chorar, senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no
hospital. E ele respondeu: Então, chora,
dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu fiquei ali
chorando. Cansei de tanto chorar.
Eu só vi minha
irmã Toy durante sua doença uma única vez nas Clínicas – na época, havia
restrição para entrada de crianças em visitas – e ela estava em um dos quartos
divididos com outra pessoa. Em final de setembro, ela precisou amputar uma parte
de uma perna por causa da doença. Na véspera de 12 de outubro de 1968, a Vera
estava escalada para dormir com a Toy nas Clínicas. Ela pediu ao Peter que
fosse em seu lugar, talvez pressentindo o que estava para acontecer. Toy
conversou muito com o marido naquela noite, e, ao lado dele, morreu.
Meu pai, ao
saber da morte da filha, abraçou minha mãe e disse:
- A nossa Toinha
se foi, Odette.
E abraçados ali
eles ficaram um longo tempo.
O enterro foi na
tarde do dia seguinte. Desnecessário lembrar toda a dor que uma família enorme
como era a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando
veem o Chris em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que era
uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe.
Hoje, é um homem com dois filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo.
Vamos voltar a 1968.
A Vera acordou
no dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a
roupa na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de
algo. Odette olhou firme e respondeu:
- A vida
continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.
E foi pegar o
Christian no colo. A partir daquele momento, o neto mais velho foi tratado como
um filho dela por toda a vida.
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