quarta-feira, 5 de março de 2014

Lágrimas em cada rosto. Uma dor de todos.

Ninguém gosta de recordações tristes. Nenhuma família gosta de perder pessoas amadas. A minha família não é exceção. Talvez a exceção tenha sido que em uma família com tantos tios, tias, primos e primas que cresceram muito próximos, a doença e a morte de uma jovem de 26 anos tenham sido mais que um choque. Muitos dizem que foi um trauma familiar e não tenho dúvidas quanto a isto. Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos, nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos, primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com a Toy – durante um mês e meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. A conviver com a dor de uma doença que ninguém sabia direito mas que estava minando as forças dela. Ignácio, meu pai, foi desmoronando aos poucos e só conseguia energia para lidar com o escritório e clientes por muita determinação. Idalina, que trabalhava em nossa casa, passou a cuidar do Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório, onde ela ajudava meu pai. Em uma das conversas que tive com mamãe, para escrever este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela época. Ela, com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:
- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o Ignácio, tinha você – uma menina de quase 12 anos. Os parentes ajudavam, a equipe da Seara Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de turnos para nos ajudar também. A Vera se fazia de forte quando visitava a Toy e sofria, pois trabalhava na Ciba, tinha trabalhado no Hospital do Servidor Público, entendia dos termos médicos e perguntava tudo para os colegas. Eu não podia chorar em nenhum lugar, tinha que estar sempre alegre. Aí um dia, ao sair das Clínicas, peguei um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista encostar o carro e comecei a chorar. Aí ele me perguntou o que eu tinha e eu respondi: Me deixa chorar, senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no hospital.  E ele respondeu: Então, chora, dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu fiquei ali chorando. Cansei de tanto chorar.
Eu só vi minha irmã Toy durante sua doença uma única vez nas Clínicas – na época, havia restrição para entrada de crianças em visitas – e ela estava em um dos quartos divididos com outra pessoa. Em final de setembro, ela precisou amputar uma parte de uma perna por causa da doença. Na véspera de 12 de outubro de 1968, a Vera estava escalada para dormir com a Toy nas Clínicas. Ela pediu ao Peter que fosse em seu lugar, talvez pressentindo o que estava para acontecer. Toy conversou muito com o marido naquela noite, e, ao lado dele, morreu.
Meu pai, ao saber da morte da filha, abraçou minha mãe e disse:
- A nossa Toinha se foi, Odette.
E abraçados ali eles ficaram um longo tempo.
O enterro foi na tarde do dia seguinte. Desnecessário lembrar toda a dor que uma família enorme como era a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando veem o Chris em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que era uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe. Hoje, é um homem com dois filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo. Vamos voltar a 1968.
A Vera acordou no dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a roupa na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de algo. Odette olhou firme e respondeu:
- A vida continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.

E foi pegar o Christian no colo. A partir daquele momento, o neto mais velho foi tratado como um filho dela por toda a vida. 

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