quinta-feira, 15 de maio de 2014

A guerreira em ação

Como a vida é construída por ciclos, os netos Chris e Anna fizeram papai voltar a sorrir e rir das travessuras infantis, ainda que tenha perdido certo brilho no olhar após a morte da Toy. Por um ano e meio, Peter e Christian moraram conosco na rua João Paes, no Brooklin Velho. Era uma casa enorme que tinha vários quartos e ainda duas salas no fundo. Em uma delas foi montado o escritório de papai e em outra funcionava o atelier de costura de mamãe. Aos domingos, a alegria ficava por conta das visitas da Anna com Vera e Enrico. Assim, graças às crianças, aos poucos, a alegria foi retornando para nossa família.
Então, mamãe mais uma vez mostrou uma garra incrível. Ao perceber que seu marido diminuía o ritmo de trabalho – talvez como reflexo do início da arteriosclerose – ela começou a vender os produtos da Rhodia. Depois de um curso de uma semana para aprender a usar os cosméticos, ela foi à luta, como lembra:
- Era assim: uma pessoa indicava uma amiga, eu pegava a maleta (que não era leve!) e ia visitar. Fazia a exposição dos produtos, fazia limpeza de pele, maquilagem e vendia. Também fazia vendas indo de porta em porta pois tinha que entregar o número combinado da produção. Pedidos feitos, eu ligava e depois de duas semanas, o caminhão entregava e na entrega dos pedidos, eu já ajeitava para fazer uma nova venda. Mas como só isto não estava rendendo muito, fui vender títulos do Montepio da Família Militar (que era uma forma de previdência privada). Umas amigas compravam para me ajudar, outras porque gostavam mesmo. E também organizava chás para vender produtos de limpeza americanos da Stanley Home, que eram espetaculares!
Odette foi ganhando mais prática em vendas (na verdade, era uma vendedora nata), e assim foi trabalhar com um conhecido em uma corretora, mostrando os imóveis e ganhando parte da comissão se a venda era concretizada. Com o que ela e papai tinham economizado e a possibilidade de fazer um empréstimo pela Caixa Econômica Federal para compra de imóvel, ela resolveu selecionar algumas casas novas no Brooklin Novo. Então combinou com Inácio para conhecerem melhor uma casa que ela havia gostado, como conta:
- Quando eu pus a chave na porta, o Inácio estava chegando também. Eu beijei a chave, e disse – “Inácio, vamos entrar na nossa casa!” A sala era iluminada, tudo novinho, com três dormitórios na parte superior e um quarto nos fundos ao lado da área de serviço e uma cozinha clara também.
Odette pintando o portão de madeira 
Inácio  no corredor da nova casa
A mudança demandou também certo desprendimento, pois morávamos em uma casa enorme e iríamos para uma bem menor. Assim, os móveis que não cabiam foram vendidos ou doados e fizemos a mudança com o que a casa poderia receber.  No quarto da frente, ficamos eu e a Idalina, que morava conosco. Rosely ficou com o quarto do meio e papai e mamãe ficaram no último. No quarto dos fundos foi instalado o escritório de papai. Naqueles anos de 1970, a rua George Ohm, no final da rua Arizona, não tinha calçamento nem iluminação. Foi muito bom ter vivido tantas mudanças naquele bairro gostoso em que as pessoas se conheciam e conversavam em um ritmo bem mais lento. A vizinhança fazia parte da vida, uns ajudando os outros.    
Esta nossa casa da rua George Ohm foi o porto seguro para toda a família durante mais de trinta anos, nos abrigando primeiro e depois as outras gerações. Ali Chris e Anna brincavam com velocípede e corriam na rua, no quintal e no corredor. 

Chris e Anna na mureta da casa. 


Foi nesta casa que em 22 de junho de 1973 recebemos um telefonema do Enrico avisando que ele e Vera já estavam no hospital para o nascimento do segundo filho – não existia ultrassom e a expectativa sobre menino ou menina era mantida até o nascimento. Mamãe foi para o hospital, onde encontrou Enrico e tia Giulianna (tia do Enrico) no corredor. Logo, a enfermeira chegou anunciando: é uma menina! E mamãe disse:
- Que Deus te abençoe, Paola, que veio para nossa felicidade! Seja bem vinda entre nós!
Mamãe lembra que tia Giulianna começou a chorar e o Enrico riu e a abraçou. E foi assim que naquele inverno chegou a Paola, nossa ruivinha de olhos azuis. Mais tarde, ela formou com Chris e Anna um trio inseparável e até hoje, não importa onde estejam, os três estão conectados. 

Foi naquela casa do Brooklin que passei minha adolescência e onde tinha um grupo enorme de amigos. Dali, saí para meu primeiro emprego aos 15 anos. Ali tive meu primeiro namorado e ali outras histórias foram vividas e serão contadas. Afinal, aquela foi a nossa casa!