Os anos iniciais da
década de 1970 foram ricos em experiências para todos da família Miessva.
Convivíamos com Anna e Paola nos finais de semana – quando Enrico e Vera muitas
vezes deixavam as pequenas conosco na sexta-feira e buscavam aos domingos, na
hora do almoço. Algumas vezes, Chris vinha nos sábados ou domingos e por
algumas horas a casa da George Ohm virava um parque de diversões sob os olhos
dos avós e das tias corujas.
Peter já tinha se
casado com Ana Maria e logo mais nasceria o primeiro irmão do Chris – o André,
que, ao lado de Betina e Júlia, nascidas anos depois, formaram a família do
Christian.
Eu estava estudando no
Colégio Estadual Oswaldo Cruz e convivia muito com os vizinhos e amigos do
Brooklin. Tinha uma turma enorme e íamos para festivais de música estudantis
e para festas regadas a cerveja e
violão. Fazíamos algumas viagens – e como meus pais não deixavam viajar sozinha
com o namorado e amigos, a Rosely ia junto. Ela se divertia e conhecia novos
lugares, como Búzios e São João Del Rey. No final de 1974, terminei um namoro de
dois anos e até isto acabou virando mais história. Eu sabia que meu pai não
gostava do rapaz. Ele era baiano com cabelo enroladinho, tocava violão e
andávamos de ônibus por toda São Paulo. Era um rapaz inteligente, mas creio que
talvez não fosse exatamente o que o papai desejava para a filha caçula. Até
hoje em dia, fica difícil saber exatamente o que pais de meninas desejam como
namorados ou maridos de suas filhas – parece que tem sempre um ‘porém’!
Enfim, certo dia, no
café da manhã, papai me perguntou onde estava aquele rapaz que ele via de vez em
quando em casa (exatamente assim!). Eu respondo imediatamente que a gente tinha
acabado o namoro, com certa má vontade pois independente de ter acabado o namoro, sabia que não gostavam dele. Aí ele abriu um enorme sorriso e um pouco depois começou a
cantar!
Em fevereiro de 1975,
depois de quatro noites de Carnaval no Club Pinheiros, na companhia de mamãe
(que aproveitava sempre para colocar a conversa em dia com as amigas), eu tinha
saído com um rapaz e estava conversando no carro dele em frente de casa quando um dos meus amigos
foi até lá – como eles muitas vezes iam para conversar com mamãe, não
achei estranho. Mas, passados alguns minutos, este meu amigo me chamou e pediu
para eu entrar. Ali, recebi a notícia da mamãe que papai tinha falecido. Ela,
Rose e eu choramos juntas. O rapaz com quem eu estava saindo foi de uma
gentileza enorme. Para evitar os trâmites burocráticos, precisávamos de uma
declaração do médico que o atendia. Então, ele foi na casa do médico com Rosely.
Com o primo José Carlos, ela também foi cuidar de outros trâmites dolorosos mas
necessários naquele momento. Depois, ela voltou e nós duas fomos ao apartamento
de Enrico e Vera dar a notícia. Enrico abriu a porta para nós e me lembro de
que colocou a mão na cabeça e foi chamar a Vera. Ela veio de camisola e desmaiou ao ouvir a notícia. Foram momentos difíceis, mas que serviram para que
mais uma vez mostrássemos a nossa união como irmãs e como família – cunhados,
tios, primos, primas – todos ficaram conosco nos dias seguintes.
Mamãe, aos quase 59
anos de idade, começava mais uma etapa em sua vida, mostrando garra em lutar
para que a nossa casa continuasse sempre sendo um lugar de abrigo a quem
precisasse e de aconchego para nós três – ela, Rosely e eu, que ali morávamos. Com Vera, lidávamos com a perda de um homem
especial que nos transmitiu valores como respeito ao próximo e a sabedoria em ouvir.
Afinal, com papai,
aprendemos que a atitude diante da adversidade ou em tempos de bonança era o
que fazia a diferença no trato com os outros e não necessariamente a religião
ou a cultura aprendida em livros. Foi-se
o mestre e ficaram as alunas, que seguiram seus ensinamentos ao longo de suas
vidas.
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