A década de 1980 começou
movimentando a nossa vida. Depois de muitas brigas, conversas e tristeza de
ambos os lados, Vera e Enrico separaram-se e a casa construída na Granja Viana
foi vendida. Na mesma época, logo após um Natal, mamãe não passou bem e fomos ao
pronto socorro do Hospital São Luiz pois eu e ela estávamos passando a tarde com tio Rui
e tia Tibi, no apartamento da Av. Santo Amaro. O parecer do médico é que ela deveria se
poupar e evitar morar em casa com escada. Então, nos mudamos para um
apartamento na rua Eduardo Souza Aranha, na Vila Nova Conceição, bairro com
tantas memórias afetivas para todos nós. Ela estranhou um pouco, pois no
Brooklin conhecia todo mundo e morar em prédio era outra realidade. Mas,
passado um tempo, quem vem morar perto da gente??? Vera, Anna e Paola, no Itaim
Bibi, em um apartamento que eu e Vera achamos andando de moto (eu já tinha
minha motocicleta – o veículo da casa!). Então, todas as manhãs, mamãe acordava
cedinho para ficar na janela e acenar para Anna e Paola que tomavam o ônibus para a escola na
Av. JK. E depois voltava a dormir! E nos domingos, Vera vinha com as meninas
comer pizza ou a gente ia até o apartamento dela. Vera voltou a trabalhar na área de
decoração e continuamos também a conviver com o Enrico – que independente de
estar ou não separado, sempre fez parte da família.
Em 1984, Christian foi morar com Ernie e Hela nos Estados Unidos e nos reunimos para a despedida. Eu
estava muito triste e Chris achou que era pela sua partida, ao que a Anna
explicou:
- Não se preocupe, ela
está chorosa porque terminou um namoro!
No final de 1984, depois
de quatro anos e meio trabalhando no Grupo Pão de Açúcar, resolvo procurar
outro emprego e respondo a um anúncio publicado na Folha de S. Paulo. Me lembro
que pensei: tenho menos de 30 anos (o que pediam), tenho mais de três anos de
experiência (idem!), tenho disponibilidade para viajar (idem!!!), tenho
disponibilidade para mudar de cidade (idem!!!). Então, por que não mandar o CV
e ainda enviar alguns exemplares do jornal interno que escrevo? Depois de
um processo seletivo com mais de 70 pessoas, fui a escolhida e assim a próxima
mudança seria mais radical: iria morar no Rio de Janeiro. Ainda que soubesse
ser este um grande sonho de mamãe, perguntei se ela queria ir ou ficar em São
Paulo. E a resposta veio unindo o emocional com o racional:
- Lena, você vai ter
viajar bastante, não conhece ninguém lá e vai precisar de uma retaguarda para
se dedicar à profissão e ficar tranquila.
E aí completou, tendo uma intuição:
- Procure um apartamento que tenha palmeiras e
jardim.
Eu ri e respondi:
- E onde eu vou achar o apartamento
que você está vendo??
Mas lá fui eu no dia 2
de janeiro de 1985. Como tudo na vida é orquestrado, Enrico nesta época já
morava lá, trabalhando como diretor geral da Mido Relógios. No primeiro sábado,
fui à procura de um apartamento para alugar e não é que achei mesmo o tal
lugar? Uma cobertura no Leme, pequena, mas com um jardim grande, palmeiras,
plantas. 15 dias depois, a mudança chegou, organizada pela Vera e mamãe em São
Paulo, que viajaram de trem para o Rio de Janeiro. E assim teve início um bom período em nossas vidas, bem divertido, em meio a trabalho primeiro na Souza Cruz e depois na Bayer, com os passeios que fazíamos, com os
namorados que eu tinha, com as ‘aventuras’ da Odette no Rio de Janeiro, cidade
que tinha tudo a ver com ela! Teve um dia que contei no relógio – da praia do
Leme até a porta do prédio, demoramos 45 minutos! Isto para percorrer quatro quarteirões.
Mas andar com ela no bairro era assim mesmo, parava para conversar com todo
mundo, conhecia todos os comerciantes da rua, fazia amizades na agência bancária.
Ficou até amiga do dono do apartamento que ia visitar a gente de vez em quando.
Ali, passamos finais de
ano na praia sozinhas ou com sobrinhos, netos, amigos e amigas vindos de São Paulo, com as crianças de Rosely e Luiz Carlos curtindo férias, com Anna e Paola visitando sozinhas a avó (pegando o ônibus da Barra, onde o Enrico
morava, até o Leme). Mamãe ia com frequência para São Paulo e algumas tias e
primas visitavam a gente. A casa sempre estava aberta para quem chegasse para
passar uns dias no Rio. Naquele apartamento, a Rosely celebrou seus 40 anos,
vimos Enrico e Vera voltarem a namorar e ele retornar para morar em São Paulo e
recasar com a Vera, em uma bela festa. Ali, a Olivia passou também algumas
férias com a avó. Ela tomava o ônibus em São Carlos e mamãe a pegava na
rodoviária do Rio. Dali, depois de vários anos, mamãe pegava um ônibus para
visitar a Vera na casa de Itamambuca. Foram dez anos de Rio de
Janeiro. Eu fiquei sete e voltei para trabalhar em São Paulo e mais uma vez
morar com o Chris na casa da George Ohm, mas este é outro capítulo...
Lena na Souza Cruz em tempo de máquina de escrever!
Lena na Souza Cruz em tempo de máquina de escrever!

Lena: comecei a ler o livro nas primeiras publicações. Depois, confesso que acabei me perdendo. Agora, no entanto, acabei de coletar todas as publicações e posso retomar a leitura. É excelente a tua iniciativa. E você sabe os caminhos do manejo das palavras. Até onde li, está ótimo, coisa de gente que sabe muito bem o que faz e faz com propriedade. Isso se chama talento. Parabéns e sucesso!!!
ResponderExcluirBellini, que bom que gostou e pode ler o que já foi escrito! Um elogio seu faz o meu dia brilhar! Abraços. Lena
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