Como a vida é construída por ciclos, os
netos Chris e Anna fizeram papai voltar a sorrir e rir das travessuras infantis, ainda que tenha perdido certo brilho no olhar após a morte da Toy. Por
um ano e meio, Peter e Christian moraram conosco na rua João Paes, no Brooklin
Velho. Era uma casa enorme que tinha vários quartos e ainda duas salas no fundo.
Em uma delas foi montado o escritório de papai e em outra funcionava o atelier de costura
de mamãe. Aos domingos, a alegria ficava por conta das visitas da Anna com Vera
e Enrico. Assim, graças às crianças, aos poucos, a alegria foi retornando para
nossa família.
Então, mamãe mais uma vez mostrou uma
garra incrível. Ao perceber que seu marido diminuía o ritmo de trabalho – talvez como
reflexo do início da arteriosclerose – ela começou a vender os produtos da
Rhodia. Depois de um curso de uma semana para aprender a usar os cosméticos,
ela foi à luta, como lembra:
- Era assim: uma pessoa indicava uma
amiga, eu pegava a maleta (que não era leve!) e ia visitar. Fazia a exposição
dos produtos, fazia limpeza de pele, maquilagem e vendia. Também fazia vendas
indo de porta em porta pois tinha que entregar o número combinado da produção. Pedidos
feitos, eu ligava e depois de duas semanas, o caminhão entregava e na entrega
dos pedidos, eu já ajeitava para fazer uma nova venda. Mas como só isto não
estava rendendo muito, fui vender títulos do Montepio da Família Militar (que
era uma forma de previdência privada). Umas amigas compravam para me ajudar,
outras porque gostavam mesmo. E também organizava chás para vender produtos de
limpeza americanos da Stanley Home, que eram espetaculares!
Odette foi ganhando mais prática em
vendas (na verdade, era uma vendedora nata), e assim foi trabalhar com um
conhecido em uma corretora, mostrando os imóveis e ganhando parte da comissão se
a venda era concretizada. Com o que ela e papai tinham economizado e a
possibilidade de fazer um empréstimo pela Caixa Econômica Federal para compra
de imóvel, ela resolveu selecionar algumas casas novas no Brooklin Novo. Então combinou
com Inácio para conhecerem melhor uma casa que ela havia gostado, como conta:
- Quando eu pus a chave na porta, o
Inácio estava chegando também. Eu beijei a chave, e disse – “Inácio, vamos
entrar na nossa casa!” A sala era iluminada, tudo novinho, com três dormitórios
na parte superior e um quarto nos fundos ao lado da área de serviço e uma cozinha clara também.
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| Odette pintando o portão de madeira |
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| Inácio no corredor da nova casa |
A mudança demandou também certo desprendimento,
pois morávamos em uma casa enorme e iríamos para uma bem menor. Assim, os
móveis que não cabiam foram vendidos ou doados e fizemos a mudança com o que a casa
poderia receber. No quarto da frente, ficamos eu e a Idalina, que morava
conosco. Rosely ficou com o quarto do meio e papai e mamãe ficaram no último. No quarto dos fundos foi instalado o escritório de papai. Naqueles anos de 1970, a rua George Ohm, no final da rua Arizona, não tinha calçamento nem iluminação. Foi muito bom ter vivido tantas mudanças naquele bairro gostoso em que as pessoas se conheciam e conversavam em um ritmo bem mais lento. A vizinhança fazia parte da vida, uns ajudando os outros.
Esta nossa casa da rua George Ohm
foi o porto seguro para toda a família durante mais de trinta anos, nos abrigando
primeiro e depois as outras gerações. Ali Chris e Anna brincavam com velocípede
e corriam na rua, no quintal e no corredor.
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| Chris e Anna na mureta da casa. |
Foi nesta casa que em 22 de junho
de 1973 recebemos um telefonema do Enrico avisando que ele e Vera já estavam no
hospital para o nascimento do segundo filho – não existia ultrassom e a expectativa
sobre menino ou menina era mantida até o nascimento. Mamãe foi para o hospital,
onde encontrou Enrico e tia Giulianna (tia do Enrico) no corredor. Logo, a enfermeira
chegou anunciando: é uma menina! E mamãe disse:
- Que Deus te abençoe, Paola, que
veio para nossa felicidade! Seja bem vinda entre nós!
Mamãe lembra que tia Giulianna começou a chorar e o Enrico
riu e a abraçou. E foi assim que naquele inverno
chegou a Paola, nossa ruivinha de olhos azuis. Mais tarde, ela formou com Chris e Anna um trio inseparável
e até hoje, não importa onde estejam, os três estão conectados.
Foi naquela casa do Brooklin que passei
minha adolescência e onde tinha um grupo enorme de amigos. Dali, saí para meu
primeiro emprego aos 15 anos. Ali tive meu primeiro namorado e ali outras
histórias foram vividas e serão contadas. Afinal, aquela foi a nossa
casa!



Lena, vou imprimir e montar o livro. Continue tem muito a ser contado para as próximas gerações.
ResponderExcluirLena, vou imprimir e montar o livro. Continue tem muito a ser contado para as próximas gerações.
ResponderExcluirNo livro que te mandei "Antes que a memória falhe" você vai encontrar diversas histórias que têm lugar justamente no Brooklin (Cidade Monções e Hípica Paulista), onde passei toda a minha adolescência e parte da juventude. E onde namorei e casei (primeiro casamento). Depois tive umas andanças pelo Campo Belo e Itaim, até me mudar novamente, já casado com a Rose, para nosso apto na Rua Indiana esquina com a Portugal. Ali vivemos e criamos nossas filhas até virmos para a terrinha.
ResponderExcluirAssim como você, eu e a Rose também começamos a trabalhar cedo: eu com 14 e ela com 15. Necessidade? Sim. Mas também vontade de aprender, de ser útil, de ser livre e independentes. Ninguém dizia que era exploração de menores, ninguém invocou os direitos das crianças e adolescentes e não morremos por causa disso nem nossa vida se desviou, muito pelo contrário. E a prova é que aqui estamos, mais vivos e lúcidos do que muita gente " superprotegida" e com menos tempo de estrada.
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